quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Caminhos Antigos XXI


As festas do passado e a cidade
Igreja de N.Sra. da Penha. Caputera

Hoje, quem segue pela rua Dr. Deodato Wertheimer, sentido Bertioga, no trecho final desta rua, encontra a avenida Prefeito Francisco Ribeiro Nogueira, que no seu terço final tem a direita o conjunto habitacional Nova Bertioga (Bertioguinha), a Escola Estadual Irene Caporalli e a esquerda a Vila Caputera, onde escondida por casas e torres de alta tensão ergue-se a pequena igreja de Nossa Senhora da Penha, local de concorridas e esperadas festas na década de cinquenta e sessenta, mas que foi desaparecendo e hoje faz parte da memória de poucos.

A expansão da cidade tornou este trajeto comum a muitos que residem para os lados da Vila da Prata, Conjunto São Sebastião, Residencial Rubi, Vila Moraes, etc, mas a pressa do dia a dia, a paisagem da cidade, cinza e monótona nas vias expressas, esconde o que ali existe e é um registro importante da história do município, que envolve a vida no bairro Caputera e as festas na igreja de Nossa Senhora da Penha, outrora também conhecida como a “Penhinha” e que levava as pessoas nos anos 1950 e 1960, do centro da cidade, seguindo o caminho apontado, percorrer em aproximadamente 35-40 minutos, em procissão, cerca de quatro quilômetros até o santuário, na primeira quinzena de setembro.
Refizemos os caminhos da cidade, do centro “de Mogi” para o “distante” Caputera dos anos 50 tendo por guia, dona Regina Montserrat Soares Pinto, nascida em 1947, na cidade de Santa Isabel, que se mudou com a família para Mogi em 1951, onde seu pai, seu Anésio, conduzia um bar e armazém de secos e molhados, no bairro do Caputera no início da estrada Capela do Ribeirão (atual avenida Francisco Nogueira). No armazém encontrava-se tudo o que era necessário, arroz, feijão, fumo de corda, artigos de limpeza, bacalhau e mantas de carne seca, anexo havia o bar com aguardente, cerveja e cigarros. Mais tarde seu pai construiu o Bar Chave de Ouro, em frente do antigo secos e molhados.
Na década de 40, a cidade de Mogi das Cruzes, seguia os passos da política nacional iniciada por Getúlio Vargas e recebia industrias de base como a siderúrgica Companhia Mineração Geral do Brasil, fabrica de papel e outras.
Desta maneira aumentava o fluxo de pessoas que procuravam a cidade, vindas de outras regiões próximas ou mais distantes como Minas Gerais, Norte, Nordeste e constatado no censo do IBGE para 1950, como uma das cidades que mais crescera nos últimos recenseamentos, apresentando 31.782 habitantes presentes na cidade e 62.218 habitantes no município. A cidade com ruas de terra ia ficando para traz com o crescimento, e a pedreira de João e Pedro Fernandes, existente no Caputera, fornecia as pedras aparelhadas, como paralelepípedo, para o calçamento de Mogi e São José dos Campos. Perto dali, a “casa dos baianos”, serie de casas de aluguel que ficaram conhecidas por esse nome por abrigar geralmente migrantes que chegavam à cidade para trabalhar.

Mogi, região central, 1956
No inicio da década de 50, a companhia cinematográfica Kino Filmes pleiteava a instalação de estudios na cidade, os cinemas exibiam a novidade dos filmes em 3° dimensão e a produção agrícola crescia junto com a cidade, abastecendo mercados distantes e novas festas ligadas a agricultura eram realizadas como a Iº Festa do Caqui em 1952.



Papel Simão, 1959
Operários movimentavam a cidade e se organizavam, como na greve dos trabalhadores da Mineração Geral do Brasil em 1945, seguidos pelos da fabrica de tecidos e fabrica de papelão, em seguida sendo fundado o sindicato dos metalúrgicos em 1948, depois o sindicato dos trabalhadores de industrias de tecelagem e fiação em 1951 e por fim em 1958 o sindicato dos trabalhadores na industria do papel.

Mineração Geral do Brasil, 1956
Com o crescimento das cidades, é restabelecido a função de inspetor de quarteirões, primeiro no município de São Paulo em junho de 1950, em decreto do governador Adhemar de Barros, depois em 1956 com Jânio Quadros para todo o estado. O inspetor era escolhido pelo delegado de polícia, atuava nos bairros mais afastados do centro e na zona rural, deveria ter profissão definida, bom conceito perante o público e principalmente residir na área de inspeção.
O inspetor tinha por finalidade auxiliar a atividade policial ao informar sobre contraventores, pessoas que por ventura perturbassem a tranquilidade pública, prevenir crimes e elaborar um cadastro do quarteirão. Sua função não era só policial, mas também politica, ao informar as autoridades sobre os acontecimentos cotidianos do bairro.
Os acontecimentos cotidianos do bairro do Caputera passavam pelo armazém do senhor Anésio que funcionava praticamente como um “centrinho” do bairro. Os trabalhadores da pedreira, atras de onde hoje fica a Vila da Prata, compravam lá, em “caderneta” , assim como gente das granjas e olaria, existentes na região, os agricultores vindos de Taiaçupeba ou Biritiba Ussu, lá deixavam seus produtos para vender, assim como a correspondência para os habitantes do bairro (cartas vindas do norte e nordeste) era entregue no armazém para distribuir, pelos ônibus que seguiam para Taiaçupeba. Num canto da venda, usando um boné de napa e bebendo cachaça ficava Geraldo “Coisa Ruim”.
Muitas crianças nasciam pelas mãos da parteira do bairro, dona Rosa Fulgaro, o “médico de almas” ou benzedor de crianças “Ditinho do Lago” resolvia problemas como susto, mal olhado, e entre os momentos de brincadeira, perto da venda funcionava a Escola Municipal Nossa Senhora da Penha, onde as crianças as vezes sentavam de três em uma mesma carteira, tendo o tinteiro ao meio para a escrita com caneta de pena.
No alto do morro do Caputera, havia as três cruzes, três pequenas capelas, duas voltadas para a cidade e uma no sentido contrario, guardavam a fama do local onde estavam, de perigoso e violento. O inspetor de quateirão tinha muito trabalho sábado a noite, quando saiam as maiores brigas movidas a cachaça.
As casas de moradores recebiam variadas festas e a de São João, na capela de São Benedito, no sítio Floresbela do seu Elídio era concorrida.
Um dos grandes momentos do bairro ou talvez o maior momento era a aguardada festa de Nossa Senhora da Penha, festa conhecida não só no entorno mas no centro da cidade de onde partia animada procissão acompanhada de banda de música.
Imagem de N. Sra. da Penha
O dia da festa iniciava as 6 horas da manhã, com a queima de morteiros com 21 tiros, no bairro do Caputera, enquanto, no centro de Mogi, percorrendo o trajeto da casa dos festeiros do ano, a procissão partia as 13:00 horas pela rua Dr. Deodato, em direção ao começo da estrada capela do Ribeirão, com queima de rojões, mandado fazer em fogueteiro de Arujá, tendo no cortejo, o povo da festa, a banda Santa Cecilia e festeiros.
No caminho, passando por plantação de flores como copo de leite, palma, cravo, o cortejo chegava ao armazém, pegava o andor de Nossa Senhora da Penha já previamente decorado e próximo da igreja, o sino começava a repicar anunciando a chegada “do povo da cidade e do bairro”, segundo dona Regina.
A frente da igreja decorada com bandeirinhas, mastro branco e azul e a bandeira de N. Sra. da Penha, compunham o cenário da festa, animada com distribuição de rosa sol, leilão de prendas, onde se destacava o “jacaré”, um pão artesanal, com mais de 1,5 metros, figurando um jacaré, “com cabeça, patas e aquele rabão curvo” como recorda Dna. Rê. Curiosamente, na imagem de N.S. da Penha, encontramos um enorme jacaré encostado nos joelhos de um peregrino após matar a cobra que lhe ameaçava.
A banda tocando um dobrado, juntava-se ao som da torcida por quem se aventurava a subir no pau de sebo, e pegar o premio em dinheiro no alto do poste de madeira.
No final da tarde havia missa e nova procissão pelos arredores. No rancho anexo era servido o café para “o povo”, com pão e biscoito, feito numa cozinha onde as senhoras recolhiam água em poço para o café, feito em fogão de lenha.
Não só as festas de devoção atraiam as pessoas, mas as peregrinações para Bonsucesso, Pirapora ou Aparecida eram comuns, seja de caminhão ou carros de praça que eram alugados para a viagem como o Stubaker Comander 1951 do Sr. Dino, motorista que trabalhava no centro de Mogi.
Festas e peregrinações, principalmente em grupos, eram momentos de compartilhar.


Para saber mais:
http://www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_pdf/populacao/1952/populacao_a1952aeb_28_a_30.pdf
http://www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_pdf/populacao/1952/populacao_a1952aeb_12_a_27.pdf
http://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/decreto/1950/decreto%20n.19.470-A,%20de%2006.06.1950.htm
http://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/decreto/1956/decreto%20n.26.142,%20de%2019.07.1956.htm
O populismo visto da periferia: adhemarismo e janismo nos Bairros da Mooca e São Miguel Paulista, 1947-1953, Adriano Duarte. Paulo Fontes, http://lanic.utexas.edu/project/etext/llilas/vrp/fontes.pdf

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Caderno de Postagens 2012


A Dialética Cultural tem como objetivo a elaboração de projetos, pesquisas e desenvolvimento interpretativo de documentos históricos, itens da cultura material e fatos históricos em museus, bibliotecas e arquivos históricos. Em seu segundo ano de existência, a Dialética Cultural produziu e manteve publicações acadêmicas (Revista Dialética Cultural N. 2),  elaborou, em parceria com a Diretoria de Ensino da Região Mogi das Cruzes,  suporte para o “Projeto Africanidades”, contando com a adesão voluntária de 15 escolas (aproximadamente 10.000 alunos), realizando palestras  e auxiliando na elaboração de exposições.
A exemplo do ano de 2011, para comemorar mais um ano de atividades, brindamos nosso público com a seleção das postagens mais relevantes deste ano de 2012, somando mais de 130 páginas sobre a documentação da região do Alto Tietê.
Na certeza de que o conjunto destas postagens constitui material de pronto auxílio para pesquisadores e estudantes interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre a região, reiteramos nossos sinceros votos de saúde e prosperidade neste novo ano de 2013.
Para visualizar o Caderno de Postagens 2012 click na imagens e a seguir, na aba publicações.

Com os cumprimentos de
Antonio Sérgio Azevedo Damy e Angelo Eduardo Nascimento Nanni, da Dialética Cultural Ltda.

sábado, 29 de dezembro de 2012

29 de dezembro de 1957: Mogi das Cruzes e a política indígena


Recentemente a televisão resgatou a trajetória dos irmãos Villas Boas, defensores intransigentes da cultura indígena e intelectualmente os criadores, junto a outras personalidades do cenário politico, cultural e cientifico, como Darcy Ribeiro, da reserva indígena “Parque Nacional do Xingu”, em 1961.
Essa vitória em 1961, era o desfecho da luta iniciada décadas antes pela preservação dos habitantes naturais do Brasil e que trouxe Orlando Villas Boas à cidade de Mogi das Cruzes, nos dias 28-29 de dezembro de 1957, anunciado-se no jornal da cidade, a concorrida palestra.
Dando sequencia a ações que visavam trazer ao grande público o conhecimento em torno das etnias indígenas e a criação de reservas que os possibilitassem viver, era o que trazia Orlando Villas Boas à cidade, acompanhado do deputado socialista Germinal Feijó, amigo de Mário de Andrade e de Antônio Cândido, que o considerava uma pessoa extremamente combativa.
Para entender a presença de Villas Boas na cidade, voltemos para meados do século passado, mais precisamente nas décadas de 40 e 50, quando parte da etnologia brasileira acreditava que os indígenas e sua cultura estavam destinados à extinção.
Contrario a esta crença, o Serviço de Proteção aos Índios divulgava, a partir de 1942, as suas ações de preservação e instalava uma seção de estudos para pesquisar as sociedades indígenas, sendo que Darcy Ribeiro ampliou essas ações de conhecimento das sociedades indígenas ao inaugurar em 1953 o Museu do Índio no Rio de Janeiro.
Nas ações de campo os irmãos Villas Boas estavam presentes no Alto Xingu desde 1943 com a expedição Roncador-Xingu.É de Orlando Villas Boas as palavras a seguir:Em 1940, as frentes de seringueiros [extratores da seiva dos seringais,], no rio Xingu, no rio Iriri, no rio Iriri alto e no rio Iriri baixo, costumavam entrar nas aldeias indígenas e davam arsênico com farinha para fazer o índio desocupar a área. Nós vimos, assistimos, até muito pouco tempo [atrás], na década da 60, seringueiros de Mato Grosso metralhando índios nas aldeias de [índios] Cinta-larga em Aripuanã [município do estado de Mato Grosso, localizado na Amazônia]. Nós assistimos e foi feito um processo que foi encaminhado até o Serviço Nacional de Segurança, de pioneiros a mandado de seringalistas [seringueiros, donos de seringais], que pegavam índias, abriam, amarravam as pernas e cortavam de facão.
Dos irmãos Villas Boas, Darcy Ribeiro escreveu que “Tinham uma consciência aguda de que, se os fazendeiros penetrassem naquele imenso território, isolando os grupos indígenas uns dos outros, acabariam com eles em pouco tempo. Não só matando, mas liquidando as suas condições ecológicas de sobrevivência.”
Segundo o próprio Orlando, três lemas pautaram sua ação e de seus irmãos: 1) não há lugar para o índio na sociedade brasileira de hoje, 2) o índio só sobrevive dentro de sua própria cultura, 3) já que o civilizado não pode levar nada de bom ao índio, pelo menos respeitemos sua família.
Hoje, perto de Mogi, em Bertioga, assistimos a situação dos índios Guarani do Rio Silveiras, tentando sobreviver, em meio ao contato com uma civilização que mais tira do que lhes dá.


Fontes
Arquivo O Diário de Mogi, dezembro de 1957 - fevereiro de 1958. 


RIBEIRO, Darcy. Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 194
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/politica-indigena
PONTES, Heloisa. Entrevista com Antonio Candido. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo, v. 16, n. 47, Oct.2001. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092001000300001 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Caminhos Antigos XX



Gente da terra, estrangeiros e os caminhos de ferro.A ferrovia na região Sabaúna-Guararema
Pelos caminhos antigos que ligavam a cidade de São Paulo ao Rio de Janeiro transitaram tropeiros transportando variada mercadoria no lombo de tropas em animais de carga. Em determinados trechos navegáveis, o rio Paraíba também era utilizado, como da Freguesia da Escada até Cachoeira Paulista, como registraram os viajantes do início do século XIX.
Com o desenvolvimento da economia cafeeira no vale do Paraíba, o trabalho do tropeiro e de auxiliares na tropa era procurado em todas as regiões cortadas pela Estrada Geral sendo que o serviço infantil de crianças de dez, doze ou quatorze anos era utilizado como demostra o seguinte contrato de trabalho de 1864: eu, José Maria de Santa Anna contratei com o senhor Alferes... dar-lhe o meu filho legitimo de nome Antônio de Santa Anna de idade de quatorze anos mais ou menos para lhe prestar o serviço de cozinheiro da tropa, sendo para Jacarey e sendo daqui para Santos.”As relações de servidão estendiam-se à infância que não era reconhecida como um tempo de vida, servindo o menor de acompanhante ou trabalhando na tropa de transporte de café.Ao mesmo tempo, a construção dos caminhos de ferro, avançavam pelo século XIX, onde a rapidez e eficiencia do trem contrastava com as tropas e decretava a substituição lenta do tropeiro.
Contemporâneo a este contrato de trabalho na tropa e as atividades do tropeiro no transporte do café, houve a tentativa de construção de uma linha férrea para escoar a produção do Vale do Paraíba para o porto de Santos, via Freguesia da Escada, em 1863.Ao mesmo tempo que a ferrovia Santos-Jundiaí era construída, o engenheiro  inglês Daniel Makinson Fox responsável por aquela construção, procedeu aos estudos de uma via férrea entre a estação do Rio Grande, no alto da serra do Cubatão, e a Freguesia da Escada, daí em diante numa utilização mista, a navegação do Paraíba em conjunto com a ferrovia.
A concessão foi atribuída ao Barão de Mauá que não conseguiu organizar companhia para a construção. Mais tarde, em 1865, o projeto é estendido até Jacareí e a concessão para exploração, atribuída a Gomes Leitão, barão do café e um dos maiores escravocratas e traficante de escravos da província, porém a parte da navegação fluvial, não inspirando confiança para o transporte de café, impediu novamente a criação de uma companhia.
Em 1871, lei provincial decretou a construção de uma linha de São Paulo a encontrar os trilhos da estrada de Ferro D. Pedro II, começando as obras em 1873 e no mesmo ano se trabalhava simultaneamente de São Paulo a Guaratinguetá.
locomotiva Baldwin similar a utilizada na região
A obra foi dividida em três seções: a primeira, de São Paulo à Jacareí, uma intermediária, de  Jacareí a Caçapava  e finalmente, de Caçapava à Cachoeira.  A primeira seção era a que compreendia maiores dificuldades e trabalhos, com pontilhões e pontes construídos sobre tijolos e pedras de cantaria, o que exigia o trabalho especializado do canteiro, com trabalhadores hábeis no corte de pedra, responsáveis também pelo trabalho no túnel dos Piroleiros, aberto em rocha com 240 metros de extensão. Nesta primeira seção da estrada, o rio Guararema, considerado “água dormente” (por adquirir grandes proporções no períodos de cheia), foi atravessado 31 vezes e retificado 25.
carro de passageiro corte interno
Aberto ao tráfego em 1875, nos quilômetros iniciais, até Jacareí, era utilizado para tração a locomotiva Baldwin e carro de passageiros Jackson Sharp.





caro de passageiro para bitola estreita









O trafego na estrada de ferro foi inaugurado em 1875-1876, mas desde 1874 temos moradores de vilas e freguesias trabalhando na estrada de ferro, para terceiros que empreitavam trechos ou secções da ferrovia em construção, assim como novos personagens que chegam à região. Os imigrantes, italianos, portugueses, etc, recém-chegados,  começavam a aparecer  nos registros, como Joseph Feudg, natural da Grã-Bretanha que se obrigava “a prestar qualquer serviço braçal.”
Destacamos como exemplo para tipificar estas novas relações que se estabeleciam, as ocorrências ligadas a dois empreiteiros, João Weber e João Gonçalves Leite em 1876. Neste ano é realizado um auto de corpo de delito em Artur Bartleth ferido mortalmente por arma de fogo próximo à Freguesia da Escada ”na empreitada de João Weber no lugar denominado cabeceira do Guararema.”
No ano anterior (1875) um auto de exame cadavérico feito no alemão Jacob Mantel, feitor de João Weber atribuiu a morte a suicídio tendo como testemunha Pasquale Brocchini “natural da Toscana, Reino da Itália e morador do bairro do Biritiba.”
João Gonçalves Leite, por sua vez, era outro empreiteiro que atuava nesta primeira seção da construção da estrada de ferro São Paulo-Rio de Janeiro, realizando contratos de “serviços na estrada de ferro” e de “rancheiro na estrada de ferro”, ou seja, fornecia “o rancho”, a alimentação nos acampamentos de trabalho, inclusive na empreitada de João Weber com quem estabeleceu contrato.
Com a construção da ferrovia as relações sociais tornavam-se mais complexas, alterando o convívio de pessoas cujos sentimentos e valores vão se transformando gerando diferentes situações que espelham as novas relações de trabalho.

Trajeto da ferrovia e locais de conflito
 
O trajeto da ferrovia passava pela cidade de Mogi das Cruzes em 1875 e seguia para Jacareí em meio a conflitos como os abaixo indicados, ocorrido a meio caminho entre a fazenda Sabaúna, Freguesia da Escada e um pequeno núcleo de habitação denominado São Benedito, perto dos acampamentos de trabalhadores, em junho daquele mesmo ano:
"deu-se um conflito entre alguns estrangeiros da estrada de ferro na empreitada do  Moreira, a quem do Rio Paraíba, com a família de Domingos Pinto, de que resultou ferimentos no mesmo e fractura de um braço da sua mulher e ferimento em seu genro...”

em azul:provavel local dos conflitos.amarelo:empreitada
 
O relato dos acontecimentos que a seguir indicamos nos mostram as mudanças nas relações sociais decorrente da chegada dos imigrantes ou dos "estrangeiros" e como a população local sente desrespeitadas as tradições e cultos locais. Veremos como imigrantes, no caso, portugueses, trabalhadores da ferrovia agridem com gozações, valores e tradições que são preservados pelos moradores da região e como estes reagem resultando em ocorrências policiais. Longe de serem casos triviais estes eventos evidenciam as relações cotidianas e suas alterações.
O inspetor de quarteirão que relatava os fatos, explicava que a família de Domingos Pinto possuía “casa de negócios na linha férrea”.
Instaurou-se inquérito policial por atos de desrespeito à família, com a realização de exame de corpo de delito nas vitimas, tendo sido ouvidas três testemunhas.
A primeira, Bernardino, negociante, morador na Freguesia da Escada disse ser primo irmão da ofendida “estava ele depoente assistindo a festa de São Benedito no bairro da Paraíba e observou um grupo de portugueses trabalhadores no serviço da estrada de ferro do Norte a cargo do Moreira e estes portando-se de modo inconveniente e gracejando com famílias e com o santo de devoção, ele depoente já previa algum acontecimento como de fato posteriormente se deu...”
A família fora atacada por homens que exerciam o oficio de “canteiro” e o depoente dizia saber que os agressores ”foram despedidos do serviço do Moreira, por este subempreiteiro, e viu ele depoente, os mesmo na cidade de Jacareí, onde se acham trabalhando nas obras do cemitério.”
Havia mais duas testemunhas no inquérito: a primeira, um professor público de primeiras letras na freguesia da Nossa Senhora da Escada e a segunda um morador de um bairro rural denominado Itapetí. Ora, qual a razão da agressão?Uma brincadeira com o culto de São Benedito.
Na região havia uma capela voltada para o culto de São Benedito que segundo tradição oral da região teria sido erguida com dinheiro de uma ex-escrava e de habitantes locais perto do rio Guararema. Luís da Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro define São Benedito como patrono dos africanos que ” em seu louvor celebravam festas religiosas, em que se exibiam diversões profanas ' e citando a cidade de Cunha, no Vale do Paraíba, São Paulo, diz que 'persiste a crença de o santo ter inventado a dança Moçambique tão popular na região'e que ' São Benedito era trabalhador na roça e para descanso, ele inventou a dança de moçambique”.
A chegada do trem alterou o ritmo de uma sociedade, trazendo a possibilidade de levar o que era produzido na terra e abastecer os centros urbanos distantes com produtos agrícolas.  
O caminho inverso também se tornou realidade, ou seja, da cidade para o campo, onde eram anunciadas viagens nos jornais em direção ao “campo”, os “pic-nics” em moda na Europa. A “Escola Alemã” promoveu um “passeio campestre”, por via férrea, para Guararema em 1884 e Jacareí em 1885, sendo que o local do pic-nic se localizava junto às margens do rio Paraíba.

O tunel dos Piroleiros
tunel dos piroleiros
Hoje conhecido como túnel das piluleiras, no século XIX foi grafado como tunel dos piroleiros, palavra portuguesa (hoje fora de uso e não dicionarizada), usada por exemplo nas atas da Câmara Municipal de São Paulo para designar pessoas ligadas ao comércio de vinho no século XVI, e atualmente em Portugal (com poucas ocorrências), para se referir a brincadeira, avacalhado, etc (por exemplo, na juventude ‘Santo Antonio era um santo piroleiro’). Igualmente notável é a origem espanhola do termo apontado pelos historiadores Luis Felipe de Alencastro e Carlos Lessa, que atribuem à palavra peruleiro (séculos XVI e XVII), a prática de comérco entre portugueses e espanhóis,  entre Brasil e baixo Peru.
tunel dos piroleiros
Com o início do transporte ferroviário a construção de túneis se tornou importante como solução de engenharia para transpor obstáculos.
Neste tipo de construção Portugal teve concluído o túnel Chão de Maças em 1862 com 650 metros de extensão, e mais tarde (1889) o túnel do Rossio com 2613 metros atravessando a cidade de Lisboa
É perfeitamente justificável que trabalhadores portugueses fossem designados para seções da obra que apresentassem a dificuldade na abertura de tuneis.

Piroleiros, palavra portuguesa ou dialeto da galia segundo alguns dicionarios, mostra a presença de trabalhadores imigrantes na região que deixaram sua marca na denominação do tunel. 
tunel dos piroleiros desativado ao lado do traçado utilizado hoje
Para saber mais
Alencastro, L.F. (2000). O trato dos viventes. São Paulo: Companhia das Letras, pg. 110.
ARQUIVO HISTÓRICO DE MOGI DAS CRUZES. Inquéritos policiais, autos criminais, 1875.
NANNI, Angelo E. Nascimento Nanni. Entre o sonho e a realidade: a constituição do núcleo colonial de Sabaúna. Mogi das Cruzes, SP: Dialética Cultural Editora, 2012.
LESSA, Carlos. O Rio de todos os brasis. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005, pg. 32-34.

Fonte das imagens
Railroad Museum of Pennsylvania, 
O novo mundo, http://memoria.bn.br/DocReader/DocReade, 
http://www.estacoesferroviarias.com.br/sp-obrasdearte/tunelpiruleiros.htm
mapa http://bndigital.bn.br/

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Caminhos Antigos XIX

 Caminhos da tradição

igreja do bairro de Santa Catarina
Depois de mais ou menos 280 quilômetros de andanças em algumas estradas de asfalto e muitas de terra, ouvindo pessoas e fotografando as obras de José Benedicto da Cruz, voltamos onde ele fez suas primeiras obras sacras, na Matriz de São Benedito em Biritiba Mirim e a igreja do bairro de Santa Catarina, na mesma cidade, distante cinco quilômetros do centro.
Saindo de Mogi, pode-se seguir direto por asfalto para Biritiba Mirim ou então até o distrito César de Souza e pela estrada do Rio Acima chegar ao bairro de Santa Catarina, onde um bar construído em 1918 divide o espaço com a Igreja e mais duas ou três casas.
Segundo Eduardo Etzel, foi em Biritiba Mirim e no bairro de Santa Catarina, que JBC começou a desenvolver toda sua genialidade através de suas pinturas sacras.
Para Etzel era incompreensível existir uma construção do tamanho da igreja de  Santa Catarina, no que ele chamava de construção “desproporcionada para o deserto onde se situa”, no entanto, a região estava perto da área do terceiro distrito do Núcleo Colonial de Sabaúna, portanto, além dos moradores já fixados e dispersos em sítios naquela região, agregava-se outros vindos recentemente para ocupar as terras coloniais de Sabaúna, que em 1905-1910, ano das pinturas sacras de JBC em Biritiba e Santa Catarina, vivia seu florescimento como núcleo agrícola.
interior da igreja de Santa Catarina-Biritiba Mirim
A igreja de Santa Catarina impressiona pelas dimensões, com coro da nave, capela mor, sacristia e compartimentos laterais, no entanto, é semelhante a outras em ambiente rural, onde tinha a função de atração e socialização dos membros do bairro que viviam a certa distância do templo, o que explica suas dimensões e seu quase isolamento no dia a dia, interrompido por festas e missas (um antigo morador afirmou que nos anos 50 – 60 as festas eram semanais).
Das igrejas visitadas e documentadas por Etzel, Santa Catarina é a que contava com uma pequena descrição, somente da pintura do forro azul da igreja, decorado por nuvens brancas que circundam a imagem da santa. Podemos arriscar dizer que os dois altares laterais e o altar mor também foram feitos por JBC, pois, são semelhantes às construções dos altares laterais de Quatinga (igreja hoje inexistente) e da antiga igreja de Biritiba Mirim, atribuidos a JBC. Os elementos decorativos que compõem o altar como as colunas, a parte superior destas, o frontão (com o coração no centro) e o acabamento superior em formato triangular em tudo são semelhantes aos retábulos laterais de outras igrejas e o rendilhado do altar mor, assim como outros atributos, também se assemelham a outros trabalhos de JBC.
Podemos afirmar, que das dez igrejas e capelas construídas ou adornadas por JBC, apenas a de São Sebastião ainda resiste, mantendo a configuração original do artista, pois um antigo zelador da igreja de Santa Catarina descascou o reboco decorado original da parede, para realizar nova pintura.
A pintura que vemos hoje decorando o interior da igreja, foi feita por Dimas Pintor, morador de Biritiba Mirim, desde 1968, e tendo cursado Artes Plásticas, conhecia o trabalho de JBC e possuia fotos antigas do interior da igreja, podendo assim basear-se para construir moldes semelhantes a pintura original e proceder a decoração, inclusive a marmorização da parte baixa das paredes. Segundo sua informação, a intervenção se resumiu à nave principal da igreja, sendo a pintura do forro e demais ambientes mantidas.
Saindo da igreja de Santa Catarina rumo a Matriz de Biritiba Mirim, distante cinco quilômetros, encontramos pouco da obra de JBC. A matriz de São Benedito, originalmente pintada por JBC entre 1905 e 1910, passou por sucessivas perdas: "Por ocasião de uma reforma com ampliação da igreja a capela mor foi incorporada à antiga nave e acrescentou-se uma nova capela mor. Neste transcurso perdeu-se a pintura de São Benedito, que caracterizava a igreja... No forro da nave permanece intocado o grande painel ... da Imaculada". É esta recriação da obra do pintor espanhol Murillo (1617-1682) realizada por JBC, a que mais  chama atenção do crítico Etzel, pois é ali que o artista caboclo mostra toda a sua "audácia e capacidade artística ... a coragem de pintar os anjos de Murillo à sua própria feição, fazendo-os como pediam sua capacidade e intuição..." (Etzel, 1978).
Em reforma bem mais recente, a Igreja passou por nova ampliação e todo o forro com as pinturas de JBC foi removido e substituído por um "moderno" forro metálico de gosto duvidoso. O painel com a complexa pintura da Imaculada foi incorporado junto a capela lateral direita. Quando visitamos a matriz, era ali que se reunia um pequeno número de mulheres em longa oração, sob o olhar da Imaculada.


altar mor, Igreja de Santa Catarina
Tradição, memória e cidadania

Em 1980, o tema da música “Tradição”, inquietava seu autor (André Barbosa, mais conhecido como o B. Anderson de Tell me once again) que se perguntava:

Alguém diz onde se esconde / A memória nacional
Contam que está morrendo / Outros que nunca existiu
Falam que foi pro estrangeiro / D'onde nunca mais saiu
Oh! Seu moço me responda / Não estaria ai no Rio?
Ou quem sabe desgostosa / Foi pra Portugal de navio

A modernidade não é incompatível com a tradição, antes, a preservação do trabalho humano, do saber e do saber fazer é preservação da memória e uma questão de cidadania.
restauro das igrejas do Carmo, Mogi das Cruzes
Para o historiador José Murilo de Carvalho,  o termo cidadania pode ser compreendido racionalmente pelas lutas, conquistas e derrotas do cidadão brasileiro ao longo da história nacional e envolve ação e o alcance de tal definição pode ser aplicado ao patrimônio histórico de Mogi quando do tombamento das Igrejas do Carmo, onde uma “batalha” se deu na cidade entre aqueles que queriam a preservação das igrejas e aqueles que queriam sua demolição, que foi noticiado assim pela revista Ato em 1982:”Foi uma verdadeira batalha. De um lado os frades carmelitas que queriam demolir as centenarias igrejas das ordens 1º e 3º, do Carmo; de outro, o inconformismo do professor de História Horacio da Silveira apoiado por um grupo de mogianos...”, entre esses, Delfino José de Camargo que visitava as obras constantemente durante a década que demorou o restauro.
O Boletim do SPHAN de 1980 relatava que em 1967, em Mogi das Cruzes, Frei Hilarião Remmerswall, procurador da Província Carmelitana de Santo Elias, enviou um abaixo assinado com 6.184 assinaturas requerendo ao SPHAN, o cancelamento do ato de tombamento das Igrejas do Carmo, pois pretendia derrubar a antiga igreja e construir outra, “mais moderna” e ampla para atender ao aumento da população. Felizmente parte da população encaminhou outra lista, esta sim, favorável ao tombamento e restauro do prédio, que permaneceu em obras de recuperação por mais de dez anos.
A carta denúncia do arquiteto Lúcio Costa ilustra o clima de disputa vivido pela população no final dos 60:
carta de Lúcio Costa
"É incrível que, numa cidade civilizada e florescente como Mogi das Cruzes, se pretenda demolir dois monumentos de tamanho valor e significação. Como pode alguém - e foram milhares os que inadvertidamente pleitearam a pena de morte para as duas pobres igrejas inermes - como pode alguém admitir, em sã consciência, que talhas e pinturas arquitetônicamente integradas sejam destruídas (ou pretensamente removidas) e a cidade se veja assim, motu próprio, empobrecida com a perda dessas insubstituíveis testemunhas da sua origem e tradição, a pretexto da necessidade de dispor de maior espaço para abrigar fiéis (ou infiéis?).”
Já a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, não teve a mesma sorte...
O patrimônio em perigo insiste em lembrar, como é o caso da arte de JBC, que intervenções neste patrimônio devem ser sempre comedidas e geradas através de atitudes preservacionistas e éticas, como demonstra a ação de Dorival Cerimoniário, ''zelador'' da igreja de São Sebastião, um quase menino, que com seus 16 anos,  tem mais consciência de cidadania que muito adulto.
Lembrando que, ao fazermos parte de uma sociedade que passa por constantes mudanças e transições, a preservação da memória é item básico. Se pretendemos alcalçar a tão propalada Sociedade do Conhecimento, temos a obrigação cidadã de democratizar o acesso à informação e compartilhar o conhecimento produzido. 


forro da igreja de Santa Catarina, Biritiba Mirim



detalhe altar mor da igreja de Santa Catarina
 
Para saber mais

CARVALHO, Jose Murilo. Cidadania no Brasil – o longo caminho. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 9-10.
O ESTADO de São Paulo, reportagem 21/06/1977, p.22 – 14/06/1977, p.14
REVISTA Eletrônica do IPHAN, http://portal.iphan.gov.br Boletim do SPHAN nº 07 MÊS JUL./AGO. ANO 1980
ETZEL, Eduardo. J.B.C. Um singular artista sacro popular: a obra transcende o homem. São Paulo: Companhia Energética de São Paulo, 1978.