A
história oficial nos apresenta o 9 de julho de 1932 como uma luta pela
autonomia e constitucionalização do país (daí o nome revolução
constitucionalista) ou o Estado de São Paulo unido sem diferenças de
classes ou partidos, mas estas são explicações simplistas em vista da
complexidade do episódio.
Para
procurar entender o que ocorreu em 1932 devemos voltar a 1930 e a
revolução que conduziu Getúlio Vargas à presidência, apeando do poder os
antigos grupos políticos da Primeira República 1889-1930 (em São Paulo,
principalmente os cafeicultores), que perderam autonomia, cargos,
privilégios e empregos, em todas as esferas de governo.
Em
Mogi das Cruzes, vitoriosa a revolução de 30, o jornal “A Vida”, órgão
oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), dominante durante a
Republica Velha, deixa de circular, sendo imediatamente substituído pela
publicação de “O Liberal”, ligado ao diretório municipal do Partido
Democrático, que dava sustentação em São Paulo, ao governo de Getúlio
Vargas.
Com
a notícia da vitória da revolução alguns conflitos de rua são
registrados e um episódio marcante, dá a ideia das divisões políticas e
lutas na cidade, quando a casa do chefe político local, representante do
Partido Republicano Paulista, Dr. Deodato Wertheimer, foi invadida,
moveis atirados pela janela e depois incendiados.
Com
um novo grupo político no poder, ainda em 1930, instalou-se na cidade a
Legião Revolucionaria dedicada a concretizar a revolução em São Paulo,
tinha como chefe o general Miguel Costa, antigo revolucionário de 1924 e
um dos líderes da Coluna Prestes que desafiara o governo federal
cruzando o país em 1925-1926 e agora tomava parte efetiva no governo de
Getúlio Vargas.
No
início de 1931, Miguel Costa esteve na cidade para solidificar a Legião
Revolucionária participando de comício na praça Coronel Almeida.
Mobilizando populares nos comícios, com um discurso inovador, defendendo
novas ideias como a situação do operário e a legislação trabalhista,
“combater o latifúndio particular, os trustes e monopólios e a absorção
dos patrimônios nacionais pelos estrangeiros.”A Legião cresceria no
Estado, tanto na capital como no interior, direcionando seu discurso
para os trabalhadores, tentando criar uma base social, estava articulada
em todos os distritos do Estado, e alguns relatos mencionavam a
existência de cerca de 17 mil legionários, chegando a 300 mil no Estado
em outubro de 1931 durante congresso da Legião.
Esses
números causaram reação dos grupos que anteriormente detinham o poder
(PRP) e mesmo no Partido Democrático (desde a sua fundação em 1926
disputava a hegemonia estadual com o PRP) que apoiara Getúlio Vargas,
mas fora afastado da chefia do governo estadual como pretendia.
Em
janeiro de 1932 o Partido Democrático rompeu oficialmente com o governo
provisório de Getúlio Vargas e em 16 de fevereiro uniu-se ao antigo
rival, o Partido Republicano Paulista, formando a Frente Única Paulista,
fazendo campanha em
defesa da autonomia estadual e da reconstitucionalização, sendo a
Frente Única uma das principais articuladoras da Revolução
Constitucionalista.
Argumentos
de ordem emocional figuravam no manifesto da Frente Única Paulista, com
apelos a “união sagrada dos paulistas”, “não deixar espaços para
ressentimentos pessoais...” e na campanha pela constitucionalização a
História era utilizada no sentido de legitimar as aspirações das classes
dirigentes de retornar ao poder, ao invocar o que seriam façanhas
históricas dos paulistas na formação do Brasil, como por exemplo, a
Independência, o bandeirante desbravador dos sertões, a descoberta do
ouro e o café.
Em
Mogi das Cruzes o ano de 1932 começou com uma festa comemorativa no
final de janeiro, missa no Largo da Matriz, do aniversario da cidade
paulista de São Vicente, a primeira cidade do Brasil. Conduzida pela
prefeitura, a festa contou com discurso especialmente elaborado para
lembrar a fundação desta cidade, tendo este ato a finalidade de lembrar
que a primeira cidade do Brasil foi paulista.
Nos meses seguintes a cidade seguia seu cotidiano normal.
Dia
10 de abril de 1932, um domingo, 5 horas da manhã, a procissão da
Ressurreição celebrando o Cristo que ressuscitou encerrava a festa do
povo, a Semana Santa de 1932.
Aproximava-se
o mês de junho e outros devotos faziam os preparativos para a festa de
Santo Antônio, que ao realizar se, tinha como característica os
festeiros com o nome Antônio e para o ano seguinte haviam sido
escolhidos 13 Antônios para preparar a festa.
Não
só as associações religiosas que viviam a Semana Santa e a paixão de
Cristo, mas os devotos da Santa Cruz, devotos e festeiros de festas
religiosas diversas, também compartilhavam o sentimento de paixão
traduzido como emoção, sentimento intenso, entusiasmo ou apego por
aquilo que tinha um significado pessoal.
Da
mesma forma podemos dizer que este ano de 1932 assistia a manifestação
das paixões políticas que conduziriam ao movimento armado de julho de
1932, os ânimos se acirravam, e na cidade era palco de disputas e
interesses locais a recém estabelecida Associação Operária de Mogi das
Cruzes.
Desde
a segunda década do século XX que Mogi das Cruzes possuía um crescente
número de operários, principalmente na industria têxtil, sendo que na
Indústria Mogiana de Tecidos havia 179 operários, além de ferreiro,
mecânico ajustador e carpinteiro, divididos em seções como tecelagem,
tinturaria, batedores de carda, caldeiras, fiação, oficina mecânica,
etc.
Diante
desta realidade em 1931, José de Azevedo Jazedo fundou uma associação
de pintores e mais tarde uma associação operária com o objetivo de
organizar a classe trabalhadora na cidade, ideia igualmente
compartilhada pela Legião Revolucionária, como visto anteriormente.
Na
verdade a tensão subia desde 23 de maio quando a sede da Legião
Revolucionaria/Partido Popular Paulista fora alvo de protestos e ataques
em São Paulo, sendo o protesto dissolvido a tiros fazendo quatro
vítimas, Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo ou MMDC.
No
início de junho o jornal “O Liberal”, comandado por membros do Partido
Democrático, antes apoiador de Getúlio Vargas, agora defensor da causa
da Frente Única Paulista investe contra a associação operária de Mogi,
dizendo “Operários!
É com pesar que presenciamos o desvirtuamento da associação...vendo-os
enganados por meia duzia de politiqueiros que não se envergonham de vos
lançar as ruas como seu instrumento.”
Na edição seguinte com a resposta de Jazedo compreendemos porque há a
menção ao “desvirtuamento da associação” ou seja como a Legião
Revolucionária que se transformara no Partido Popular Paulista, a
Associação Operária pretendia transformar-se em partido político, “um
único partido, que seria o partido trabalhista, cujo programa em parte
orientaria pontos do partido da Legião Revolucionaria... este partido
unicamente trabalhista seria fundado em praça pública.” Segundo a historiadora Maria Helena Capelato “A classe operária é a grande ausente no Movimento de 32... ficou ausente na construção da memória de 32”
Em
10 de julho chegam a cidade os primeiros contingentes de soldados que
se alojam no 1º grupo escolar. Receando o conflito iminente, algumas
famílias deixam a cidade tomando o caminho dos distritos como Taiaçupeba
ou paragens detrás da serra.
Os
primeiros voluntários seguem para a frente de batalha, o campo de
aviação da cidade ganha um hangar, pois o emprego do avião seria a
grande novidade da revolução de 32 e Mogi, na rota do Vale do Paraíba
poderia auxiliar com seu campo de aviação. Voluntários se apresentam
para cuidar dos enfermos e a Campanha do Ouro para o Bem de São Paulo é
organizada, na lista de doadores centenas de pessoas, como Leonor de
Oliveira, que doa alianças e Joaquim Flaviano de Mello, com sua coleção
de moedas históricas de ouro e cobre.
O
Departamento de Propaganda Cívica incorporava as imagens como um fator
importante no conflito. O mapa do pintor José Wasth Rodrigues, revela
com uma riqueza de detalhes, o brazão das cidades que mais contribuiram
ao movimento e as principais rotas (terrestres e aéreas), ligando os
diversos municípios com a movimentação das tropas nas três principais
frentes.
Cria-se
uma nova cartografia, uma imagética de redenção, de apelo aos
sentimentos. Com a função de mostrar o sistema viário do Estado, um
outro mapa apresenta o território paulista como uma enfermeira, que num
misto de olhar altivo e redentor, evoca o valor do sacrifício. É o que
provavelmente condiciona Dona Leonor de Oliveira em suas contribuições:
em uma de suas peças doadas, le-se: Fé, Esperança e Caridade.
No final daquele ano de 1932, o jornal "A Plebe", voz dos operários,
cobrava as autoridades paulistas sobre a precariedade da assistência
médica, dizendo:"para a guerra havia ouro, para os hospitais não".
Para saber mais
ALMEIDA, Ivete Batista S. O olhar de quem faz. São Paulo durante a revolução de 1932. São Paulo:Ed.Expressa, 2001.
BORGES, Vavy Pacheco. Getúlio Vargas e a oligarquia paulista. São Paulo: Brasiliense, 1979.
CAPELATO, Maria Helena. O movimento de 1932 – A causa paulista. São Paulo:Brasiliense,1981.
FUNDAÇÃO
FGV: completo acervo de fotos, artigos e monografias, documentos,
entrevistas, etc. sobre a ERA VARGAS e o movimento de 1932. Disponível
em http://cpdoc.fgv.br/.
Criação do Ministério de Trabalho
No
período conhecido como Primeira República (1889-1930), alternavam-se
como presidentes do país, representantes de São Paulo e Minas Gerais
(política do café com leite), e as questões relativas ao mundo do
trabalho eram resolvidas pelo Ministério da Agricultura.
O
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, foi criado em 26 de
novembro de 1930, numa das primeiras iniciativas do governo chefiado por
Getúlio Vargas, após a revolução de 1930.Foi chamado por sua
importância de o "ministério da revolução", pois no período anterior a
1930 não existia regulamentações em questões trabalhistas e mediação no
conflito entre capital e trabalho, principalmente em uma região
industrial como São Paulo.
O Código Eleitoral de 1932
O
Código Eleitoral promulgado em 24 de fevereiro de 1932, estabelecia no
artigo 142 que o Governo, no decreto em que convocaria os eleitores para
a eleição de representantes à constituinte determinaria também “a representação das associações profissionais” ou de classe. Marcava as eleições para maio de 1933.
Fonte das imagens:mapas, Acervo cartografico da Biblioteca Nacional
Jornal:Arquivo Histórico de Mogi das Cruzes
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe aqui seu comentário