quarta-feira, 4 de julho de 2012

Revista Dialética Cultural

Revista Dialética Cultural
Volume 1, Número 2, Junho 2012.

A Revista Dialética Cultural, constitui uma Revista Eletrônica destinada ao fomento de publicações acadêmicas. Produzida por Dialética Cultural, empresa criada por um grupo de professores universitários interessados na divulgação de informações acadêmicas voltadas à área de ensino e pesquisa, com a preocupação maior de apresentar, discutir e estimular a elaboração de pesquisas versando sobre documentação histórica, ensaios, manifestações culturais e porque não, questionamentos e provocações que possam acrescentar conhecimentos àqueles envolvidos nesse ambiente.
Para cumprir com estes objetivos, a Revista optou não apenas por produzir, mas principalmente, por construir socialmente o conhecimento. Para fazer frente a este desafio, a Revista utiliza-se largamente de processos sincrônicos e assíncronos viabilizados pela atual tecnologia comunicativa, centralizados no software desenvolvido pelo Public Knowledge Project (PKP), em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade de British Columbia, Biblioteca da Universidade Simon Fraser, Escola de Educação da Universidade de Stanford e pelo Centro Canadense de Estudos em Publicação da Universidade Simon Fraser. No Brasil, este projeto é representado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).
A Revista apresenta em sua estrutura básica um núcleo de atividades que permite a leitura
on-line e impressa de textos (especificamente formatados para uma impressão correta), com
destaque para a padronização gráfica, postagem de comentários por parte de leitores previamente
cadastrados, índices onomásticos e remissivos, sumário com hipertexto e busca por autores,
assuntos e títulos publicados.
Em seu segundo número, a Revista elenca uma série de três monografias abordando temas como A Salesópolis. A Festa do Divino: das origens aos dias atuais, do pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Robson Belchior de Oliveira Chaves; Chile – 11 de setembro de 1973: História oral de três membros de uma família de imigrantes, de Gisele de Carvalho Silvestre e Cidade dormente: a ferrovia e a formação de cidades-estações no subúrbio leste paulistano (Poá), de Carolina Lanzoni Gomes Fernandes. Três outros artigos complementam a revista: Congada de São Benedito em Mogi das Cruzes, de Alessandra Teixeira; Festa do Divino em Mogi das Cruzes, do pesquisador Robson Belchior Oliveira Chaves e As faces do Budismo em Suzano, da pesquisadora Elizabeth Gonzaga, mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Angelo Eduardo N. Nanni e Antonio Sérgio A. Damy

Editores da Revista Dialética Cultural

sábado, 23 de junho de 2012

Caminhos Antigos VI

Entrada do canal de Bertioga e os prédios da Armação das Baleias.
Caminhos da Bertioga: da lamparina movida a óleo de baleia até a energia elétrica.
Atividade conhecida e praticada em Portugal, por exemplo nos Açores do século XVI, a pesca da baleia encontrou, em parte do litoral do Brasil, um local para a instalação das armações baleeiras, “industria” de pesca, de extração de óleo, utilizados como lubrificante, sabão, cera de velas, óleo para iluminação, sendo utilizado na iluminação pública em oratórios nas esquinas de cidades como o Rio de Janeiro colonial e processamento de muitos outros produtos vindos das baleias. 
 
Ao contrario do que muita gente pensa, a História do Brasil Colonial não se resume só a senhores de engenho e cana-de-açúcar da distante região Nordeste ou o ouro das Minas Gerais, antes, a terra que se oferecia para a exploração era desconhecida e as certezas de um empreendimento que apresentasse lucro para Portugal caminhava ao lado das incertezas e dúvidas de um lugar desconhecido, onde o fantástico fazia parte da explicação do mundo real, como na narração de Frei Vicente do Salvador em 1627 que descrevia o novo mundo : “ Há muitas mui grandes baleias, que no meio do inverno vem a parir nas baías, e rios fundos desta costa (…) Há também homens marinhos, que já foram vistos sair fora da água após os índios, e nela hão morto alguns, que andavam pescando, mas não lhes comem mais que os olhos e nariz, por onde se conhece, que não foram tubarões, porque também há muitos neste mar, que comem pernas e braços, e toda a carne.”

Ainda é Frei Vicente que traduz a violência da pesca com imagens fortes como “sangue cobre o sol, nuvem vermelha e mar vermelho”, quando conta detalhada descrição da pesca na Bahia, no início dos anos 1600 :“o padre revestido benze as lanchas, e todos os instrumentos, que nesta pescaria servem, e com isto se vão em busca das baleias, e a primeira coisa que fazem é arpoar o filho, a que chamam baleato, o qual anda sempre em cima da água brincando, dando saltos como golfinhos, e assim com facilidade o arpoam com um arpéu de esgalhos posto em uma haste, como de um dardo, e em o ferindo e prendendo com os galhos puxam por ele com a corda do arpéu, e o amarram, e atracam em uma das lanchas, que são três as que andam neste ministério, e logo da outra arpoam a mãe, que não se aparta do filho, e como a baleia não tem ossos mais que no espinhaço, e o arpão é pesado, e despedido de bom braço, entra-lhe até o meio da haste, sentindo-se ela ferida corre, e foge uma légua, às vezes mais, por cima da água, e o arpoador lhe larga a corda, e a vai seguindo até que canse, e cheguem as duas lanchas, que chegadas se tornam todas três a pôr em esquadrão, ficando a que traz o baleato no meio, o qual a mãe sentindo se vem para ele, e neste tempo da outra lancha outro arpoador lhe despede com a mesma força o arpão, e ela dá outra corrida como a primeira, da qual fica já tão cansada, que de todas as três lanchas a lanceiam com lanças de ferros agudos a modo de meias-luas, e a ferem de maneira que dá muitos bramidos com a dor, e quando morre bota pelas ventas tanta quantidade de sangue para o ar, que cobre o sol, e faz uma nuvem vermelha, com que fica o mar vermelho, e este é o sinal que acabou, e morreu, logo com muita presteza se lançam ao mar cinco homens com cordas de linho grossas, e a atracam, e amarram a uma lancha...”
Neste mundo, apesar dos perigos imaginários dos “homens marinhos” e outros mais reais da atividade de colonização, estabeleceu-se neste início de século XVII o monopólio real de pesca da baleia e arrendamento do direito de pesca para particulares sob a forma de contrato e desta maneira parte do litoral brasileiro apresentou a ocupação com a armação de baleias nas capitanias do Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo, nesta ultima na ilha de São Sebastião, Santos e Bertioga.
A armação das baleias de Bertioga foi erguida junto ao Forte São Felipe, na Ilha de Santo Amaro, hoje no território do Guarujá, ficando na trilha que parte da área de desembarque da balsa quando hoje se cruza o canal no sentido Bertioga – Guarujá.
No século XVIII a armação das baleias de Bertioga assim como outras no litoral também serviu para a defesa dos domínios portugueses como podemos ver na instrução militar de 14 de janeiro de 1775, para o Governador da Capitania de São Paulo, onde este deveria informar-se do número e qualidade de embarcações utilizados na pesca pelos contratadores de baleias de Santos, Bertioga e Santa Catarina, devendo aprontar as embarcações assim que fosse requisitado, “não só porque o mesmo contrato é o que tem maior interesse na preservação e defensa dos domínios meridionais do Brasil, porque sem elles não pode a pesca das baleas subsistir de alguma sorte naqueles ferteis e abundantes sítios; mas porque o dito incômodo e prejuizo, sendo de particulares, não devem ser atendidos, quando se trata de causa pública.”
Segundo a historiadora Miryam Ellis o estabelecimento de Bertioga contava em 1789 com uma capela, um sobrado, armazém, casa dos tanques de azeite, o engenho, três casas para amarras e lanchas, casa dos feitores, casa dos baleeiros, trinta senzalas para escravos, fonte de água, cais de pedra, casas dos baleeiros da barra, caldeiras e instrumentos de pescas, ferragens de variado uso, objetos de bronze, ferramentas de carpinteiro, tanoeiro que fabricava barris ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, ferramentas do calafate que era o artesão especializado em vedar ou calafetar as juntas entre as tábuas de que era feita os barcos, três saveiros, quatro lanchas, duas canoas grandes, onze pequenas e sessenta e três escravos.
Pelos itens constantes no inventário de 1789 podemos ter ideia de como era realizado o trabalho na armação, a pesca, extração e produção de óleo e outros produtos.
As embarcações eram guardadas em construções próprias e descendo pelo cais de pedra a pesca era realizada por baleeiros assalariados que incluía um arpoador, remadores, um homem para cuidar do leme e mesmo por pequenos agricultores da região, sendo que as vezes, segundo Miryam Ellis, eram coagidos a força devido o perigo da pesca, pois, não era raro a morte na tripulação do barco que em geral ficava três meses arpoando. Utilizavam os saveiros e lanchas, servindo os barcos menores como apoio ou para arpoar baleias mais perto da costa e dependendo do estado das embarcações entraria os serviços do carpinteiro ou do calafate, responsável pela impermeabilização e calafetação das juntas dos barcos para a perfeita navegação.
Arpoada, a baleia era arrastada até a praia da armação e ali começavam os trabalhos de extração, a gordura retirada e levada ao engenho e derretida em tanques. Os escravos trabalhavam no engenho, nos tanques de azeite, na extração das barbatanas e cerdas. Os serviços do tanoeiro eram utilizados na confecção de pipas para armazenar e transportar o óleo conseguido que girava em torno de 12 a 20 pipas por baleia (se utilizarmos a pipa da região do Douro em Portugal como unidade de medida, temos 1 pipa = 550 litros ).
Morando na armação, responsável pela condução dos trabalhos desde a pesca até o processamento do óleo, ficavam os feitores, que para José Bonifácio de Andrada e Silva eram estúpidos, autoritários, pretensiosos e “inteiramente ignorantes na arte de pescar baleias” por insistirem em arpoar filhotes de baleia, (os baleotes de mama) e as mães. Estes homens conduziam “a perniciosa pratica de matarem os baleotes de mama para assim arpoarem as mães com maior facilidade. Tem estas tanto amor a seus filhinhos, que quase os trazem entre as barbatanas para lhes darem leite e se por ventura lhes matam, não desemparam o lugar, sem deixar igualmente a vida na ponta dos arpões:é seu amor tamanho, que podendo demorar-se no fundo da água por mais de meia hora sem vir respirar acima e escapar assim ao perigo, que as ameaça, folgam antes expor a vida para salvarem a dos filhinhos, que não podem estar sem respirar por tanto tempo. Esta ternura das mães facilita a pesca (…) mas trara a ruína total de tão importante pescaria.”
Além do óleo que abastecia o mercado interno para a iluminação, o azeite e a barba de baleia figuravam na lista de produtos exportados em 1777 e segundo o professor Carlos Cordeiro da Universidade dos Açores (Portugal), especialista em questões comerciais entre Açores e Brasil, estes produtos também lá chegavam e faziam parte do quotidiano açoriano.
Entre 1812 e 1819 os viajantes ingleses John Mawe e Robert Southey passaram por Bertioga observando e relatando o que viam. Southey teceu um breve comentário, restrito a “onde os baleeiros tem um estabelecimento”, porém as descrições de John Mawe são mais apuradas, como as de um viajante-reporter, que nos leva a conhecer o lugar: “...resolvemos não aguardar navio em Santos, mas seguir para o Rio de Janeiro numa canoa, margeando a costa. Alugada uma, embarcamos, depois de remarmos toda a noite, num estreito que separa a Ilha de Santo Amaro, que constitui uma das passagens para Santos, por mar, chegamos, ao nascer do sol, a Bertioga, situada no extremo norte daquela ilha. É pequena a cidade, com algumas construções toleráveis e boas, erguida por conveniência do Capitão-mor e seus ajudantes, que superintendiam um estabelecimento de pesca, similar ao de Santa Catarina, pertencente a mesma companhia, mas muito inferior em tamanho e capacidade. Em ambos, os negros mais hábeis ocupavam-se no preparo de barbatanas de baleia, produto de considerável comércio, …, apanham-se, anualmente, grande número de baleias. Os edifícios para derreter a gordura e armazenar o óleo estão convenientemente instalados.”
Apesar da armação continuar em funcionamento, a verdade é que os contratos haviam sido extintos em 1801 por alvará real e a pesca entrado em decadência. Podemos ler nos relatos de John Mawe que uma mesma companhia atuava tanto em Bertioga como em outros lugares, mas, neste mesmo século XIX a pesca indiscriminada e predatória da baleia levou a decadência das armações, estagnação da vila e um mergulho no isolamento.
A vila de pescadores, no entanto, sobrevivia com a pesca farta de outros tipos de peixe, por exemplo, a tainha, a cultura de frutas, um pequeno comércio se instalara e abastecia o lugar que no início do século XX viu a inauguração em seu território da usina hidroelétrica de Itatinga, em 1910, para gerar energia para o porto de Santos, porém, continuando a vila sem eletricidade, tendo a luz dos pequenos lampiões a querosene por iluminação.
Nos anos 30 a vila é redescoberta e sua importância histórica ressaltada por Mário de Andrade que viajara para justamente conhecer os marcos históricos e dizia:”As duas pensões não tinham mais quartos, com veranistas. Afinal fomos dormir numa casa de taipa dum tabaréu que nem iluminação de vela tinha ...”
A energia elétrica chegou em meados da década de 60 com a expansão dos loteamentos e parcelamento do solo e de lá até hoje muita coisa mudou e a cidade convive com uma ocupação indiscriminada e predatória. Sem uma normatização adequada que regulamente essa ocupação, ação do poder público para conter a especulação e conservar o patrimônio cultural de Bertioga, corre-se o risco de repetir o caso e ocaso da armação das baleias.


Fonte das imagens
Mapa da fortaleza de Bertioga que D Luis mandou fazer 1775    Biblioteca Nacional
Walfang_zwischen_1856_und_1907
Whale Fishing Fac simile of a Woodcut in the Cosmographie Universelle of Thevet in folio Paris 1574
James Cook-whaling

Para saber mais:
Os livros 1 e 2 podem ser encontrados no Arquivo Histórico de Mogi das Cruzes
1) ELLIS, Myriam. Aspectos da pesca da baleia no Brasil colonial II. Revista de História. São Paulo, v. XVI, n.º 33, p 149-175, jan, 1958a.
  1. ELLIS, Myriam. Aspectos da pesca da baleia no Brasil colonial III. Revista de História. São Paulo, v. XVI, n.º 34, p. 379-424 , abril, 1958b.
  2. ELLIS, Myriam. A Baleia no Brasil colonial. São Paulo: Melhoramentos, 1969
  3. MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil. B.H./S.P. Editora Itatiaia/EDUSP, 1978, pag.75

domingo, 10 de junho de 2012

Caminhos Antigos V



Fortaleza de Bertioga e terrapleno feito em 1775
Caminhos da Bertioga: da fortaleza colonial ao turismo atual
Apesar de separadas pela Serra do Mar e cada cidade viver sua própria realidade, Mogi das Cruzes e Bertioga sempre estiveram muito próximas, tanto que no período colonial, por questões de abastecimento, o povo de Mogi descia a serra por caminhos diversos que compreendiam a via que tinha por destino Boracéia e região, ou pelo Campo Grande (atual Taiaçupeba) desembocando próximo do Rio Itapanhaú.
A comunicação de Mogi das Cruzes com o litoral, no início do século XVIII, sofreu as consequências da descoberta de metais preciosos e receios da coroa portuguesa quanto ao livre acesso às minas, assim os três caminhos que de Mogi levavam à Santos foram fechados por ordem real.
Por essa mesma razão a fortaleza da Bertioga passou em 1724 por uma reforma que a dotou de uma construção feita de pedra e argamassa ao invés de somente estacas de madeira, pois se esperava que o porto de Santos tivesse um incremento no comércio e possivelmente fosse alvo de piratas.
Anos depois, em 1775 as reformas na fortaleza da Bertioga, feitas a mando de D. Luis Antônio de Sousa Botelho Mourão, governador da capitania de São Paulo, faziam parte de uma série de medidas que objetivaram defender o território da coroa portuguesa que vivia litígios com o Império espanhol além de continuar a guarnecer a vila de Santos.
Podemos ver na primeira planta a reforma empreendida para reparar os danos causados pela ação do mar no muro lateral da fortaleza e em seguida, na segunda planta que nos mostra a entrada do canal de Bertioga, vemos as novas estacas que circundavam o forte para reforçar a defesa e do outro lado do canal, a “armação das baleias”, onde hoje ainda podemos encontrar alguns vestígios da construção, as estacas e paredes de pedra que compunham o fortim do lado oposto à fortaleza da Bertioga para cruzar tiros com o Forte São João e não permitir a entrada pelo canal para ameaçar e atingir Santos.
 
    Fortaleza da Bertioga que D Luis mandou fazer em 1775
O século XIX assistiu o esquecimento do Forte, o ocaso da armação das baleias e a dura sobrevivência da vila de pescadores e pequenos criadores ou sitiantes, mas no alvorecer do século XX, com a modernidade representada pelo automóvel, as estradas com condições para o transito de veículos passava a ser a pauta de reivindicação das autoridades, sendo realizado em 1917 o I Congresso Paulista de Estradas de Rodagem e em Mogi das Cruzes novamente se pensava na ligação com Bertioga.
Com o início das obras, em 1926, da adutora que iria contribuir para abastecimento de água na cidade de São Paulo São Paulo, os distritos de Biritiba Mirim e Taiaçupeba que ficavam mais próximos do alto da Serra do Mar e outrora tinham passagem para o litoral, passaram a contar com estradas que viabilizaram o transito pesado de caminhões que levavam materiais e operários para as obras. Instalados em Taiaçupeba os operários eram transportados para as obras da adutora na caçamba dos caminhões, sendo que não era raro acidentes como os de 1935, onde um caminhão Sauer despencou num precipício com 22 pessoas, com saldo de 4 mortes e 16 feridos, entre estes alguns em estado grave. Meses mais tarde outra morte era anunciada no transporte de operários que moravam na sede do distrito.
Aos poucos a ligação por estrada de rodagem de Mogi com o alto da Serra do Mar ia sendo efetivada, muitas vezes com estrada aberta, mas caminhos precários, o que era uma constante em relação às estradas como podemos constatar pelos anúncios veiculados em jornal do Ford V8 para o final dos anos 30 que destacava a “Rodagem Especial” que aumentava a altura do carro e garantia “o transito dos mais acidentados caminhos”.
As comunicações por estrada de rodagem avançavam e Santos e Guarujá atraiam turistas principalmente da capital, enquanto Bertioga, no início da década de 40 era vista como um potencial investimento com os primeiros loteamentos urbanísticos abertos pela Cia. Urbanística de Bertioga, tendo a frente José Ermírio de Moraes junto a outros empresários, que também fundam mais tarde a Praias Paulistas S/A e loteiam a região conhecida hoje por Indaiá. É desta época também, especificamente 1948, a Colônia de Férias do SESC.
A corretagem destes e outros loteamentos começavam e logo atingiam a cidade de Mogi das Cruzes em 1957 e inicio dos anos 60 levando muitos mogianos a comprar e construir em Bertioga, na vila Itapanhaú, Indaiá, Balneário Mogiano na Boracéia ou próximo ao SESC, levando a viagem de descanso para o litoral de 3 a 4 horas seguindo pela Via Anchieta-Santos-Guarujá-Bertioga.
Ao mesmo tempo a possibilidade da ligação rodoviária direta Mogi – Bertioga continuava presente para os mogianos com a aprovação pelo Conselho Rodoviário do Estado da construção da rodovia passando por Taiaçupeba, o que faz com que um grupo do distrito, liderados por Milton Rabelo e mais 27 homens desçam a serra do mar, usando trilhas antigas para demonstrar a viabilidade da empreitada passando pelo Sertão dos Freires, de outra feita, realizam a medição do rio Itapanhaú, pernoitando no pé da serra, no dia seguinte sobem as escarpas por trilhas até o ponto de ônibus do Sertão dos Freires.
Há muito a ligação rodoviária se concretizou e consolidou o crescimento da região de Bertioga e com essa ligação direta com o planalto os caminhos continuam a se transformar e novas formas são produzidas, agora com a anunciada duplicação da rodovia Mogi – Bertioga.
Hoje Bertioga não precisa mais da defesa de sua fortaleza contra perigos que venham do mar, no entanto a defesa ainda se faz necessária em relação à conservação de seu patrimônio histórico, materializados em suas construções tombadas, inclusive o Forte São Luiz (23/09/1974) que precisa de urgente intervenção, seu patrimônio cultural que conta com sambaquis, dentre eles um registrado no rio Itapanhaú, a aldeia Guarani no rio Silveira em Boracéia e outros, onde a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo aponta a ausência de pesquisas sistemáticas no campo do patrimônio cultural como um todo ou sumariamente abordada.

Fontes jornail “O Liberal”, 1933, 1938
Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo – tombamento Fortaleza de São Felipe, Livro do Tombo Histórico, inscrição nº87, p.10, 23/09/1974

A fortaleza de São Felipe coberta por vegetação, na ponta da ilha de Santo Amaro, vista de Bertioga

O lado menos visível do canal da Bertioga
Quando, na década de 30, Mário de Andrade concebeu um serviço de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional já havia a preocupação com as construções históricas no litoral, particularmente em Bertioga, que foi visitada por Luis Saia, amigo de Mário, que escreveu “Notas de uma viagem a Bertioga” em 1937, o que levou neste mesmo ano a uma viagem do próprio Mário de Andrade para tomar contato com as construções coloniais e a cultura caiçara. Entre os bens para tombamento inventariados por Mario de Andrade em 1937 se encontrava, além do forte São João, as ruínas do São Felipe ou São Luis. 
De frente para o Forte São João, localizado no lado oposto do canal de Bertioga, no extremo norte da Ilha de Santo Amaro no Guarujá, coberto pela vegetação repousa os vestígios do Forte São Felipe ou São Luiz.

A duplicidade do nome se explica porque em 1904 o escritor Euclides da Cunha se referiu a um dos fortes de Bertioga como São Felipe, no entanto, a construção do século XVI desapareceu e o que hoje vemos é a construção que data provavelmente do final do século XVIII denominada Forte São Luiz (Livro do Tombo Histórico: inscrição nº 87, p. 10, 23/09/1974) e os muros de pedra que ladeiam a costeira do canal e conduzem ao forte, juntamente com as muralhas e piso que resistem ao tempo e ao descaso.
Aqui ressaltamos em detalhe esta construção, apresentado no início da página com o título “Obra da estacada que D. Luis mandou fazer na Bertioga 1775” (acervo Biblioteca Nacional), mostrando que existia no lado oposto ao Forte São João uma “Estacada” ou barreira construída com grandes estacas de madeira para proteção, possivelmente de artilharia e artilheiro, pois a posição favorecia a artilharia de fogo cruzado com o Forte São João, impedindo desta maneira que inimigos entrassem pelo canal da Bertioga, surpreendessem e tivessem acesso à vila de Santos por um local menos guarnecido.
Se hoje cruzarmos de barco o canal no sentido Bertioga – Guarujá, desembarcando e seguindo a trilha à esquerda pela costeira podemos ver o que está representado no desenho do século XVIII, com a Armação das Baleias (restam poucos vestígios), muros de pedra no “caminho da vigia” e “caminho da estacada”.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Pouca pompa e muita fé

Domingo, 3 de Junho de 2012 realizou-se no entorno da Capela de Santo Alberto, no Itapeti, a Festa da Divino Espírito Santo. Festa simples, em ambiente rural, congrega atuais e antigos moradores do Bairro.
Valdinei de Matos Godoy




terça-feira, 22 de maio de 2012

Caminhos Antigos IV

Doações de Fé, O Livro de Ouro do Divino Espírito Santo, 1936


O Livro de Ouro da festa do divino é um documento que revela a extensão e participação da população no andamento da festa, desde o ano anterior quando começavam os preparativos. Ato coletivo que pela extensão e valor total das doações não se resume nas pessoas mais conhecidas e com dinheiro, antes, o que vemos é uma participação extensa que talvez possa ser resumida no doador que se identifica e assina como um devoto ou nos doadores anônimos das listas que circulavam e são agregadas ao livro de ouro.  
Os trabalhos começavam, com a confecção do livro que era costurado com acabamento francês (brochura), em gráfica na rua Barão de Jaceguai n°21.A capa almofadada, vermelha com detalhes ornamentais e letras grafadas em dourado compunham o Livro de Ouro Pró Festas do Divino Espírito Santo.Abaixo do título as informações : Mogy das Cruzes, anno 1936 e  Festeiros: Francisco Ferreira Lopes, Jardelina Almeida Lopes para o ano em questão.A série Caminhos Antigos fotografou e reproduz a capa do livro de 1936, graças a uma gentileza do neto de Francisco Ferreira Lopes, Francisco José Witzel.
Com o livro pronto havia diversas maneiras de recolher donativos para a festa. Inicialmente as paginas eram divididas em valores fixos doados e dentro desta categoria existia pouco mais de 400 pessoas doadoras, os valores indo do maior para o menor, sendo o maior 500$000 e depois 200$000, 100$000, 50$000, 30$000, 27$000, 20$000, 10$000 e 7$000. Para se ter uma idéia mais concreta dos valores e poder de compra do dinheiro na época, 1$000 compravam 10 exemplares de jornal, o salário mínimo que foi instituído em 1936, regulamentado em 1938, efetivamente passou a vigorar em 1940, valia 240$000 para manter uma família de quatro pessoas durante um mês.
Depois desta seção de valores fixos, havia outra com o título “Donativos para a festa do Divino Espírito Santo”, onde muitas pessoas ficavam encarregadas de passar listas angariando pequenos donativos pela cidade e nos distritos como Sabaúna e Taiaçupeba, chegando os valores finais destas listas a girar em torno de 20$000 a 40$000 e algumas 90$000, outras realizavam doações em mercadorias e havia ainda os estabelecimentos comerciais e industriais como Serraria Sant’anna, Sociedade Industrial, Fabrica de Louça, Fabrica de Vinho, Agencia Ford, Agencia Chevrolet e as contribuições coletivas de trabalhadores como os operários da Companhia Mechanica, funcionários da Linha da Estrada Central entre Jacarey e Norte, funcionários da Câmara Municipal e outros.
Bailes, matines e quermesses eram realizados com renda total de quase dois contos de réis para os bailes e variada para a quermesse onde havia a barraca portuguesa, holandesa, japonesa, barraca portuguesa seção vinhos, leilão, rifa, e barraca maça

Adereços usados na festa                                Festa 1936
Quando o campo faz a festa na cidade

Na área central da cidade, quando ocorriam as festas de devoção como São Benedito, Divino Espírito Santo e outras, na verdade, estes cantos e danças vinham da área rural de Mogi das Cruzes.
É Mário de Andrade, o criador da poesia moderna brasileira que diz: (...) já me acostumei a reconhecer que justamente os arredores da Capital são verdadeiros mananciais de surpresas folclóricas. (...) a nossa lustrosa capital é toda orlada assim dum caipirismo (...), que nos transporta (...) a um passado antiqüíssimo em que ainda revivem as danças indígenas e a conversão delas ao catolicismo pela mão adestrada dos Jesuítas.2
Junto de Mário de Andrade, o maior antropólogo do século XX, Claude Lévi-Strauss esteve em Mogi das Cruzes em 1936 com sua esposa Dina Lévi-Strauss, para filmar a Festa do Divino. Diz Lévi-Strauss: “Ele (Mario) nos iniciou nas tradições populares e indígenas e, juntos, viajamos até Mogi das Cruzes.”3 Para entender como Mário de Andrade e o casal Lévi-Strauss tiveram como pouso Mogi das Cruzes, vamos traçar uma pequena trajetória de nossos personagens antes de sua estadia na cidade.
Mário de Andrade, ainda nos anos 20, iniciou uma atividade que continuaria pelo resto de sua vida: um trabalho meticuloso de documentação envolvendo história, cultura e essencialmente a música popular do interior do Brasil, principalmente de São Paulo e Nordeste.
Viajante incansável e observador atento, após o Curso de Etnografia ministrado por Dina Lévi-Strauss, cria a Sociedade de Etnografia e Folclore em 1936, com o intuito de "[...] promover e divulgar estudos etnográficos, antropológicos e folclóricos."4 vinculada ao Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Necessário dizer que o o Departamento de Cultura foi dirigido por Mário de Andrade entre 1935 a 1938.
É um período singular na história da formação da inteligência brasileira, coincidindo com a criação da Universidade de São Paulo e da Escola Livre de Sociologia e Política Assim, a recém criada Sociedade de Etnografia e Folclore (SEF), reunia entre seus sócios fundadores, nomes como os de Mario de Andrade, Claude Levi-Strauss, sua esposa Dina Strauss, a etnomusicóloga Oneida Alvarenga e Plínio Ayrosa entre outros.
É neste fervilhante ambiente intelectual que em 1936 Mario de Andrade chegou a Mogi das Cruzes acompanhado do casal Levi Straus para documentar a Festa do Divino e no seu artigo para a Revista do Arquivo sobre a “Entrada dos Palmitos”5 ele se referia “as filmagens que o Departamento de Cultura realizaria no dia seguinte”.
Os filmes a que Mário se refereria são: “Festejos populares em Mogi das Cruzes – Cavalhada”, “Moçambique – Festa do Divino em Mogi das Cruzes”, “Festa do Divino Espírito Santo” e “Congada – Festa do Divino em Mogi das Cruzes”, os dois últimos assinados pelo casal Lévi-Strauss.
A presença do casal não é mera coincidência e sim fruto dos esforços de Mário de Andrade para a criação da Sociedade de Etnografia e Folclore. A SEF necessitava de uma base teórica que justificasse seus projetos futuros, Dina a sedimentou com o Curso de Etnografia, estruturado em 23 aulas abordando aspectos técnicos para a observação, pesquisa e coleta de materiais etnográficos e culturais (que hoje poderiam se traduzir por aspectos materiais e imateriais da cultura).
Dina Lévi-Strauss comentou em sua aula sobre “a dança e o drama” que “[...] A representação dramática é particularmente observável nas festas regionais. Nestas ocasiões – como por exemplo observou-se recentemente em Mogi das Cruzes – formam-se às vezes verdadeiras companhias temporárias de atores [...]”6.
Como um dos maiores modernistas, Mario de Andrade sabia da importância de documentar as manifestações populares, frente a uma modernidade e uma noção de progresso que ameaçava o “antigo”. Hoje esses registros são importantes para compreender a festa, “vivendo para quem quiser estudar”, como queria Mário de Andrade.
Um ano após estas filmagens, a Sociedade de Etnografia e Folclore, propôs o mapeamento folclórico e cultural do Estado de São Paulo, fundamentado nas correntes antropológicas disponíveis à época e principalmente na metodologia desenvolvida durante o Curso de Etnografia de Dina Lévi-Strauss.
Mogi das Cruzes não poderia estar ausente desta empreitada, então, Mário de Andrade remeteu a vinte destinatários, entre eles Leonor de Oliveira e Gabriel Pereira, um levantamento sobre as principais ocorrências folclóricas no Alto Tietê, criando uma tipologia para danças, alimentação, benzimentos e simpatias.
O inquérito impressiona por suas dimensões, vejamos por exemplo,  o que recomendava para o registro das danças dramáticas como a Congada, Cavalhada, etc.
As observações essenciais no estudo do drama são as seguintes:
1) Lugar, data e ocasião da festa e qual o motivo da escolha desse lugar, data e ocasião.
2) Tudo quanto se refira aos atores: quem são, qual sua posição social, quem é o organizador ou proprietário da festa.
3) O assunto da representação.
4) Quais as disposições tomadas para realização da festa, tanto em relação aos executantes como os assistentes.
5) Descrever e recolher os vestuarios, mascaras, disfarces, emfim todos os accessorios de encenação.7
No tocante à itens da cultura material, em sua aula 14 (Cultura Material), Dina cita diretamente alguns procedimentos indicador por Marcel Mauss, para a coleta:
“Mauss diz que é preciso recolher tudo, pois que tudo é interessante. Uma coleção etnografica não é uma coleção de obras de arte; mas representa uma cultura e seu interesse consiste nisto, somente nisto. Sobretudo o preconceito de pureza de estilo precisa ser posto de lado. Do ponto de vista etnográfico, não há pureza de estilo, mas sempre mistura, influência, contato de culturas.”8
Muito embora a SEF tenha encerrado suas atividades de forma prematura, dois anos após sua fundação, Mário de Andrade continuou seus levantamentos e o registro etnomusicológico por todo o Brasil.
Experiências recentes neste território contemplam muitas vezes uma releitura do trabalho de Mário. É o caso por exemplo do excelente percurso de coleta, registro e de divulgação de informação etnomusicológica levada a efeito pelo grupo A Barca9 ao refazer parte do percurso de Mário contido em seu Turista Aprendiz. Experiência semelhante é possível, senão obrigatória no Alto Tietê: refazer os inquéritos folclóricos para preservar o que ainda persiste e registrar o que está por desaparecer.

                   Registro de 1936: preparação da cavalhada no Largo Bom Jesus, ao fundo a casa de Antenor de Souza Mello

Fontes:

1LÉVI-STRAUS, C. Tristes Trópicos.  Paris: Plan, 1955, p. 55-56.
2ANDRADE, M. de. Revista do Arquivo Municipal n. XXXIV, Fev., 1937, p. 203-204.
3LÉVI-STRAUSS, C. Entrevista ao O Estado de São Paulo, 1997. Disponível em http://daedalus-pt.blogspot.com/2003/09/ainda-lvi-strauss.html.
4SHIMABUKURO, E.H.; BOTANI, A.S.L.; AZEVEDO, J.E. Centro Cultural São Paulo, 2012, p.5
5ANDRADE, Mario. A entrada dos palmitos. Revista do Arquivo Municipal. V. XXXII. Departamento de Cultura, São Paulo, 1937, p. 51-64.
6 CENTRO CULTURAL SÃO PAULO. Catálago da Sociedade de Etnografia e Folclore. Apostila do Curso de Etnografia, 11a aula: A dança e o drama, [Dina Lévi- Strauss]. 3p. mimeo.Cx.1, doc.12.
7Ibid. 28 de Maio de 1938. Transcrito por Mário de andrade.
8CENTRO CULTURAL SÃO PAULO. Catálago da Sociedade de Etnografia e Folclore. Apostila do Curso de Etnografia, 14a aula: Cultura Material, [Dina Lévi- Strauss]. 3p. mimeo.Cx.1, doc.12.
9 Chico Saraiva. Disponível em http://www.chicosaraiva.com.br/a-barca.
Fontes das fotos: Livro de ouro, acervo Sr Witzel; Festa 1936, J.B.Camargo-IEB fundo Mário de Andrade.