quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Caminhos Antigos XVII

José Benedicto da Cruz: o Leonardo da Vinci caboclo

divino, capela santa cruz do bairrinho (Etzel, 1978)

Quando andamos pelos caminhos do sertão em qualquer direção, seja para o lado da serra do Itapety ou para a serra do Mar, encontramos muitas capelas centenárias espalhadas pelo caminho, algumas com dimensões maiores para agrupar razoável número de pessoas, outras menores, só para orações, diversas santas cruzes e ainda capelas abertas para a estrada. Também encontramos construções recentes, onde, em muitos sítios ou “chácaras de fim de semana” o dono mandou construir um oratório ou capela.
região de atuação de JBC no Alto tiete.
A devoção acompanhou a colonização e a expansão humana pelo território e até hoje, qualquer que seja a denominação religiosa, está lá junto aos homens, a casa de Deus.
A presença da religião era tão marcante e intensa que em 1821-1822 chama a atenção como a legislação jurídico-político, no aspecto de auferir legitimidade e seriedade ao ato eleitoral, valia-se de ações simbólico-religiosas através de missas, missas cantadas e te-déuns em ação de graças antes e após os atos eleitorais. Dizia a legislação da época:“Chegada a hora da reunião... se dirigirão com o presidente a Igreja Matriz e nela celebrara o Pároco a Missa solene do Espírito Santo, e fará um discurso análogo as circunstâncias.”
Acabada a missa todos voltavam de onde tinham saído e iniciavam a junta eleitoral. Terminados os trabalhos a junta eleitoral se dissolvia e “Os cidadãos que formaram a Junta levando o Eleitor ou Eleitores entre o presidente, Escrutinadores e Secretario, se dirigirão a Igreja Matriz, onde se cantará um Te-Deum solene.”
Muitas capelas serviram de núcleos de povoamento e se transformaram em freguesias, vilas e cidades, exibindo os paramentos e acessórios necessários ao culto religioso, outras mais simples e distantes, em povoações menores, serviram para reunir as pessoas do bairro e eram decoradas com o trabalho de santeiros, entalhadores de altar e pintores, que até o final do século XIX transitavam por nossa região.
Os santeiros para fazer as imagens de culto doméstico utilizavam como matéria prima a madeira ou principalmente o barro e essas imagens, típicas do século XIX e de nossa região, ficaram conhecidas como paulistinha e povoaram as casas de caboclos e as capelinhas.
Essas imagens, tidas hoje como de grande valor artístico, tinham com centro irradiador a cidade de Santa Isabel onde morava o santeiro Dito Pituba. Além desta cidade e de Arujá, cidade do santeiro Dito Luzia, o pesquisador Eduardo Etzel reuniu na região, no início dos anos 70, imagens paulistinhas em Sabaúna, Taiaçupeba e Salesópolis.
Os locais de culto coletivo como igrejas e capelas, também recebiam o trabalho de artesãos, que se dedicavam ao entalhe de altares e a pintura decorativa.
É neste imaginário de final do século XIX, ainda durante a escravidão, que a 2 de fevereiro de 1877, em Paraibuna, nasce José Benedito da Cruz, conforme consta no assentamento de batismo: “Aos vinte e sete de fevereiro de mil oitocentos e setenta e sete batisei e pus os santos óleos a José, de vinte dias, filho de Benedicto Antonio de Souza e de Maria Francisca”. Seus pais, egressos da Bahia, alcançaram o Vale do Paraíba acompanhando o crescimento da lavoura cafeeira nesta região.
José Benedito da Cruz, caboclo de olhos verdes, “pardão, cor de cuia”, foi um homem simples, católico e religioso, membro da Ordem Terceira do Carmo em Mogi das Cruzes, conforme depoimento de seu filho Ciro Esperidião, recolhido por Etzel em 1977.
mapa 1915, estrada do salto até Sabaúna
Passou sua infância em São Luiz do Paraitinga e aos vinte anos, casa-se em Mogi das Cruzes com Thereza Maria de Jesus, moradora de Biritiba Mirim. (dos dez filhos do casal, apenas quatro chegaram à idade adulta). Durante um bom tempo, residiu numa pequena chácara, situada no Alto do Ipiranga, a qual vendeu para adquirir um sítio no bairro do Salto, na Serra do Itapeti, entre Sabaúna e Guararema, onde passou os últimos dez anos de sua vida.Trabalhou em Sabaúna para onde a estrada do Salto levava diretamente.
Faleceu em 14 de janeiro de 1934, aos cinquenta e seis anos. O atestado de óbito aponta como causa da morte: “alienação mental e caquexia”.
Os apelidos de José Benedicto da Cruz dão um ideia de suas atividades. Era conhecido como Zé Pedreiro, Zé Pintor, Zé Santeiro e Zé Correia. Autodidata, dotado de uma sensibilidade fora do comum, seu ofício “aprendeu de ideia, com o sentido dele mesmo”. Rosa, sua filha, lembra-se de certa vez o pai ter afirmado ser : “capaz de fazer qualquer coisa, e que se quisesse fazia um terno e virava alfaiate”.
pinturas de JBC, capela do Bairrinho (Etzel,1978)
Apesar de, na lida pela sobrevivência dedicar-se essencialmente ao ofício de pedreiro, de pintor de parede e marceneiro, é o trabalho simultaneamente dedicado à arte sacra, que irá compor o conjunto de sua obra: a pintura sacra, a imaginária e a confecção de retábulos e oratórios. É o que comprovam os recibos datados de 1917 e 1918, quando trabalhou na matriz de Taiaçupeba: “... J.B.C. trabalhou como ajudante de pedreiro, pedreiro, pintor de parede e, depois, como pintor da capela mor e dos altares laterais. Seu ganho em todas estas diferentes atividades foi sempre o mesmo: $ 5.000 (cinco mil réis) por dia. O mesmo ganhava na época um carpinteiro...”.
Este foi José Benedicto da Cruz, diarista, criador e recriador de igrejas e pinturas, capaz de realizar uma releitura única das obras clássicas (como as pinturas do espanhol Murillo) e ambientá-las no meio rural e caboclo do sertão do Alto Tietê e do Vale do Paraíba. “... teve a coragem de pintar os anjos de Murillo à sua própria feição, fazendo-os como pediam sua capacidade e intuição. Espelha-se então como um delicioso primitivo que retratou nos anjos a infância pobre e brutalizada que o rodeava na vida simples de sua própria vizinhança.”
mapa da estrada Itapeti do Salto-Capela do Sino
Hoje, seguindo pela estrada Mogi Guararema antes do início da descida da serra de Sabaúna, encontramos uma capelinha ao lado esquerdo, onde começa a estrada Itapeti do Salto.
foto atual, capela do sino, estrada itapeti do salto
Caminhando por ela, localizamos, ainda resistindo ao tempo, numa pequena capela, o trabalho do final da vida de JBC: uma pintura do Santo Sudário, pintado sobre tábuas, que na reforma da capela da Santa Cruz do Sino, foi colocada no alpendre, já tendo sofrido repintura. Seguindo pelo mesmo caminho,  pouco mais à frente, já no território de Guararema, encontramos a Capela da Santa Cruz do Bairrinho (aqui vista nas fotos de Etzel de 1978 e as cores vivas de JBC).Atualmente a Capela da Santa Cruz do Bairrinho conserva somente pinturas decorativas nas paredes laterais, sem referência as pinturas originais de JBC.
Nosso personagem, apesar das pesquisas de Etzel, continua quase anônimo e além de fazer pinturas e ser santeiro, foi “divineiro”, ou seja, fazia delicados Divinos de barro ou madeira, assim como João Caetano, divineiro de Biritiba Ussu, que depois de um derrame, morreu na Santa Casa pobre e anônimo.


Fontes:
ETZEL, Eduardo. J.B.C. Um singular artista sacro popular: a obra transcende o homem. São Paulo: Companhia Energética de São Paulo, 1978. p. 16-30 (passim).

Para saber mais
Oratórios: constituem pequenas capelas domésticas para se acomodar as imagens de devoção.JBC fazia e decorava oratórios.
Paulistinhas: imagens de santo, geralmente feitas de barro queimado e confeccionadas principalmente no século XIX.
Retábulos: constituem painéis sacros, entalhados  em madeira, que se posicionam acima ou atrás do altar principal. JBC foi o responsável pela confecção de retábulos  e provavelmente, dos altares das Igrejas do Barroso, Biritiba Mirim, Quatinga Velha  (hoje um patrimônio cultural desaparecido) e São Sebastião.
Te Déuns:  Cântico católico em ação de graças iniciado pela expressão "Te Deum laudamus" (Senhor nós te louvamos).

Publicações
ETZEL, Eduardo. Imagens religiosas de São Paulo, apreciação histórica. São Paulo: Melhoramentos/EDUSP, 1971.
______. J.B.C. Um singular artista sacro popular: a obra transcende o homem. São Paulo: Companhia Energética de São Paulo, 1978.
______. Divino, simbolismo no folclore e na arte popular. São Paulo: Kosmos, 1995.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Caminhos Antigos XVI

detalhe do forro, anjos e detalhe das colunas do altar mor
Taiaçupeba das artes
Um homem pintou o teto de capelas da região com singular simplicidade e beleza, tinha por apelido, talvez por ficar amarrado pintando ou deitado num andaime, Zé Correia. Outro que esculpia, passava dias de descanso na região e ainda o estrangeiro que buscou a tranquilidade e inspiração do local, deixando suas impressões marcadas na paisagem da região ao fazer de sua morada o reflexo de sua alma impressionista-expressionista.
Os caminhos de 3 artistas se encontram, em momentos diferentes da história, mas reunidos num mesmo local:Taiaçupeba. Ao chegar, o ambiente tranquilo do distrito, a rua ladeada por pequenas casas, pessoas no ponto de ônibus, alguns pedestres circulam nas proximidades e na praça onde o edifício da igreja se destaca dos demais, repousa um tesouro no interior do templo, materializados na talha, pintura do altar e forro, exemplo da arte sacra popular de um artesão do povo que se dedicou na vida a criar verdadeiras obras de arte, a partir de suas vivências e de sua crença. Anonimo como muitos artistas populares, representa nosso acervo cultural, nosso patrimônio histórico, conhecido por poucos e que mostra em termos de arte sacra, que nossos olhos não devem estar voltados somente as maravilhas da arte barroca em Minas Gerais ou Nordeste, mas também para capelas simples de pequenas localidades do interior, onde se encontram o trabalho do artesão anonimo que aprendia e tinha como escola artística a interpretação pessoal dos santinhos de papel distribuídos no culto ou nas festas devocionais, as paginas de uma bíblia dominical e os catecismos.
Nossa história tem início quando os caminhos nos levam à capela da Santa Cruz e ao Livro de Recibos de 1885 (pesquisados por Eduardo Etzel) que nos mostram como a pequena capela de 1864 vai ganhando contornos maiores, com os serviços de taipa no corredor da igreja, as madeiras aprumadas que davam formas ao coro em 1889 - ano da Proclamação da República. No ano seguinte (1890), o assoalho ficava pronto e três anos mais tarde (1893), era finalizado o forro do templo.
Forro da capela: original de JBC
José Benedicto da Cruz ou simplesmente JBC, o homem que tinha a religiosidade marcada no nome de José, nome bíblico que significa “aquele que acrescenta”, Benedicto ou abençoado, foi pedreiro, taipeiro, trabalhava como marceneiro, entalhava oratórios e altares, pintava e decorava igrejas na região de Mogi das Cruzes e foi o grande responsável por deixar a igreja de Taiaçupeba da maneira que hoje a encontramos.
Os trabalhos na estrutura da igreja se estenderam até 1917 quando JBC finalizou o forro da capela como mostram os recibos e a assinatura que deixou no local com data e ano da conclusão da obra em 1918.
No forro da capela, a religiosidade de JBC dá lugar a uma reinterpretação e releitura própria de uma obra do barroco do final do século XVII, uma Nossa Senhora da Conceição, rodeada de anjos, redistribuídos entre as nuvens, segundo sua concepção.
Ao fundo da igreja, o altar mor guardava uma solução interessante: dois anjos pintados acima do altar, um de cada lado, olham com as mãos em prece para o centro do altar.

anjos enquadrados por elementos arquitetonicos do altar: original de JBC

Contemporânea à presença de JBC em Mogi das Cruzes, pintando capelas e igrejas, a semana de Arte Moderna acontece em São Paulo em 1922,  buscando a expressão de uma manifestação artística genuinamente nacional.
Graça, escultura em bronze
Entre seus participantes estava Victor Brecheret que viria a se casar com Jurandy Helena em 1939, ou simplesmente Dona Juranda, moradora da vila Taiaçupeba, agora mais movimentada em meados do século XX, por conta dos trabalhadores da “Adutora do Rio Claro”, sistema de abastecimento de água para a cidade de São Paulo, em construção naquele momento.
Brecheret, diferentemente de JBC, representou uma outra vertente da arte, sistematizada e erudita. Introdutor do modernismo na escultura brasileira, estudou no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e na Europa. Até o ano de 1955, ano de sua morte, dividiu sua carreira entre o Brasil e a Europa, com exposições em salões internacionais, Bienais como a de São Paulo e de Veneza em 1950 e 1952 e algumas estadas em Taiaçupeba.
Por volta desta época a região recebe O maior pintor chines dos últimos quinhentos anos:  título de um dos filmes recém produzidos que procuram retratar a história de vida deste senhor que por cerca de 17 anos estabeleceu morada em Taiaçupeba. Ano passado, a conhecida loja londrina, a Sotheby´s, vendeu uma coleção com 25 pinturas suas por U$ 87,3 milhões ou aproximadamente 178 milhões de Reais!
Chang Dai-Chien ou Zhang Daqian nasceu em Neikiang, província de Szechuan em 19 de Maio de 1899, filho de um rico comerciante. Em 1917, conduzido por seu irmão Zhang Shanzi (um artista bastante conhecido por suas pinturas retratando tigres) iniciou seus estudos artísticos em Kioto, Japão. Ao 20 anos, instalou-se em Shangai, estudando a arte chinesa com os mestres Tseng Nung-jan e Li Mei-an. A partir de 1927 realizou uma série de viagens pelo interior da China, para melhor conhecer sua natureza e cultura.
Nos anos 40, lidera um grupo de artistas para estudar as gravuras rupestres e murais do imaginário budista nas cavernas de Mogao e Yulin na China (as "Cavernas dos Mil Budas"). Desta experiência, o grupo realiza mais de 200 pinturas.
Por discordar da revolução chinesa, iniciou uma série de perigrinações, vivendo em Formosa, Hong Kong, Índia, Estados Unidos e Argentina.
"Em 1953, ao regressar dos Estados Unidos rumo à Argentina, numa escala no porto de Santos, soube por um amigo da existência de uma região de bom clima, onde era possível comprar terras por um preço conveniente."   Mudou-se então para a cidade de Mogi das Cruzes e dois anos depois comprou um sítio de seis alqueires na região de Taiaçupeba. "Ali construiu seu paraíso, criando várias obras e dedicando-se ao ensino da pintura para uns poucos discípulos.". O professor Sun Chia Chin, fundador da cátedra de Chines na Universidade de São Paulo, foi um deles.
Descontente com o projeto de construção da represa de Taiaçupeba, que inundaria parte de seu sítio e destruiria sua espetacular casa cenário,  Chang Dai-Chien mudou-se para Pebble Beach, na Califórnia, em 1970.
Em 1976, convidado pelo governo de Formosa, estabelece nova residência em Taipei, onde faleceu em abril de 1983.
O jornal O Estado de São Paulo, em sua edição de 1 de junho de 1969 traz uma pequena matéria sobre o artista, destacando-se o depoimento de seu médico pessoal, o Dr. Nobolo Mori: "O professor quase não vê e, outro dia, quando lhe perguntei como consegue pintar sem visão, ele me respondeu que tinha sua pintura na alma..."
Sua antiga residência em Carmel, na Califórnia foi transformada em fundação cultural e museu. Em Taipei, criou-se um museu, especialmente para acomodar parte de sua produção artística, o  Memorial Museum of Zhang Daqian. O mesmo em Neijiang, na China, o Zhang Da Qian Museum. Sua obra pode ser encontrada nos principais museus do mundo ocidental, como o Jeu de Paume em Paris,  o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e o Museu de Arte de São Paulo, Já em Taiaçupeba, apenas os moradores mais antigos lembram-se do antigo professor, como ainda é referenciado e de sua residência, por ele nominada como o Jardim das Oito Virtudes.



Para saber mais
Eduardo Etzel foi médico, cirurgião toraxico, psicanalista e profundo conhecedor da arte sacra popular tendo dedicado grande parte da sua vida ao trabalho de pesquisa de campo, coletando e registrando material de pesquisa como imagens sacras, oratórios, altares de culto domestico, locais de construção de santas cruzes, capelas, igrejas e entrevistas com moradores de locais pesquisados.
A região de pesquisa fundamental para Etzel, se estende de São Paulo em direção ao Alto Tiete, Vale do Paraíba e litoral.
Diferente das regiões mais ricas como Minas Gerais e Nordeste, a arte sacra encontrada por Etzel nos locais de pesquisa, mostrou sua origem ligada ao artesão caboclo, morador das pequenas localidades.
ETZEL, Eduardo. J.B.C. - Um singular artista sacro popular, a obra transcende o homem.S.P.: Cesp, 1978

Restauro da igreja de Taiaçupeba
A igreja de Taiaçupeba foi restaurada em março de 1988 pelos artistas Victor Wuo, Zanivam e Ilse Wuo

forro da capela, restaurado por Victor Wuo em 1988



Filmes
Zhang, Weimin (Dir.). Genius of Chang Dai-chien.  San Francisco State University,2011. Filme Ducumentário, 30 minutos.

Gordon, Richard; Hinton, Carma (Dir.). Abode Of Illusion: The Life And Art Of Chang Daí-chien, 1993. Filme Documentário, 59 minutos.

BANCO INTERAMERICANO DE DESARROLLO. Cuando Oriente llegó a América.
Contribuciones de inmigrantes chinos, japoneses y coreanos, 2004. ISBN: 9781931003735. pg. 111-­112

CHINA ON LINE MUSEUM. Zhang Daqian Paintings. http://www.chinaonlinemuseum.com/painting-zhang-daqian.php

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Caminhos Antigos XV


A Freguesia de Santa Cruz do Campo Grande

Rota a pé de Mogi das Cruzes à Taiaçupeba

Partindo da Igreja Matriz no centro de Mogi das Cruzes, até a Igreja da Santa Cruz no centro de Taiaçupeba, são vinte e três quilômetros, quatro horas e cinquenta e um minutos de caminhada.
Inicialmente, seguindo pela rua Major Arouche de Toledo, virando a direita na rua Ipiranga e andando até a avenida Henrique Eroles, cujo início apresenta uma subida íngreme e após uma sucessão de curvas entramos na avenida Japão, até a altura do conjunto Santo Ângelo, onde começa a antiga estrada do Rio Grande que termina um pouco antes do perímetro urbano de Taiaçupeba, como nos aponta o Google Maps. Há mais de cento e cinquenta anos atrás, distância e itinerário semelhantes, conduziam ao bairro da Capela da Santa Cruz do Campo Grande.
Até meados do século XIX a região do Campo Grande abrigava uma formação social dispersa, típica do bairro rural, com o dia a dia abrigando a vida do campo, na lida com a lavoura e criações, servindo como referência para a utilização dos caminhos para Santos, fosse de Jacareí, Santa Isabel, ou mesmo Mogi. Assim, no lombo das tropas de muares, as cargas seguiam saindo da cidade pela rua Ipiranga.
Com a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí (conhecida como “a Ingleza”) a partir dos anos 1860, houve a utilização de mão de obra desta região, principalmente de 1863 a 1867, quando foi inaugurada a Estação do Alto da Serra e, muito provavelmente, alguns trabalhadores ali se fixaram, tendo por concreto a benção da Capela do Campo Grande no ano de 1864, um pequeno agrupamento de casas, com umas duas dezenas de moradias. Diante da relativa proximidade com a estrada de ferro inglesa, a região e os seus representantes anteviam uma prosperidade e crescimento futuro.
Sendo um local de passagem e também de pessoas já estabelecidas, o bairro contava com a virtude e potência presentes na cruz, símbolo do catolicismo oficial, indicativo do local de culto.
Dentro de um “catolicismo social” ou de uma devoção popular, contava também com a função do culto às almas, de marcos de sepultura, da defesa dos andarilhos contra mal feitores e principalmente, estas Santas Cruzes representavam a presença divina entre os homens, estabelecendo a ordenação espiritual do universo, entre homem e natureza, humanizando os ciclos biológicos da vida e da morte. Desta maneira,  podemos compreender porque estes locais estabelecem a invocação da Santa Cruz em sua capela para os cultos populares.
Do mesmo modo que a Assembleia Legislativa Provincial havia elevado à Freguesia, em 1838, as Capelas Curadas de São José do Paraitinga (atual Salesópolis) e Itaquaquecetuba, passados cinquenta anos, em 1888, era enviado à Assembléia paulista, através da Câmara Municipal de Mogi das Cruzes, uma proposição dos moradores da Capela de Santa Cruz do Campo Grande (atual Taiaçupeba) visando sua elevação em Freguesia.
A resposta da Assembleia era favorável a esta transformação, frisando, no entanto, a falta de cadeia no local, porém, contando com “boa Igreja, cemitério e pessoal suficiente.”
O cemitério da povoação obedecia às normas e preocupações sanitárias que determinavam “o estabelecimento dos cemitérios fora dos templos...”, sendo benzido em novembro de 1885, após missa na capela e em seguida, procissão no sentido capela-cemitério e do benzimento com todas as formalidades do Ritual Romano.
pedido para elevação à freguesia 1888, parecer favorável
Ao chegar no Campo Grande em 1888 o viajante encontrava uma povoação expressa da seguinte maneira na proposição dos moradores: ”contem este bairro já edificada e funcionando uma excelente Capela, bem como um Cemitério convenientemente cercado e provisionado.
É nessa Capela que os suplicantes assistem ao Culto Divino, aos domingos e dias santos, sendo nela celebrados o Santo Sacrifício da Missa e mais atos religiosos que são postos em prática pelo Reverendo Vigário da Paróquia de Mogi das Cruzes e outros sacerdotes aos quais temos retribuido … possui oito quarteirões devidamente providos de seus Inspetores, contendo cada um deles um número de vinte e cinco fogos, dos quais tomando-se o termo médio … a população relativa... é 3000 habitantes. A referida capela possui os paramento e acessórios necessários ...
Quanto à divisas é força declina-las a fim de que... reconheçam a racionalidade do pedido que os suplicantes ora fazem e são elas : tem começo na linha do Alto da Serra que divisa o município de Santos com o de Mogi das Cruzes e o lado do Sul para o Norte, principia no bairro denominado Quatinga até o rio Tayssupebasú de cuja cabeceira desce até a ponte do Rio Grande tocando a Estrada da Estação da Estrada de ferro Ingleza deste nome, seguindo por ela (estrada de rodagem) a encontrar o rio Jundiay subindo-se ao mesmo até o ribeirão da Estiva, em continuação do mesmo rio até o bairro Biritibassú...”
A proposição dos habitantes da Santa Cruz terminava com a assinatura de dezoito pessoas, todas cidadãos residentes no local: dez delas colocavam ao lado do nome, a identificação lavrador e oito, ao lado da assinatura, a identificação eleitor.
Porque o pedido era encabeçado por eleitores? Qual o significado de eleitor no governo imperial do século XIX?
A lei eleitoral de 1881, redigida pelo então Deputado Geral Rui Barbosa, ficou conhecida por Lei Saraiva ou Lei do Censo. Em seu artigo segundo, estabelecia que era eleitor, aquele que apresentasse renda anual não inferior a 200$000, podendo também candidatar-se, o cidadão que tivesse renda proporcional à importância do cargo pretendido (vereador, juiz de paz, deputado, etc.).
titulo de eleitor em 1881
Figurava nesta lei os inovadores títulos de eleitor que deveriam conter, além da indicação da província, comarca, município, paróquia, distrito de paz e quarteirão, o nome, idade, filiação, estado, profissão, domicilio e renda do eleitor.
O moradores do Campo Grande moviam-se e reinvindicavam a elevação do bairro para Freguesia em vista de obter serviços religiosos com maior constância e também, em função da importância que o local ia aos poucos adquirindo. As autoridades, também em função da obtenção de poder político, e possibilidade de estabelecer relações de poder na e além da freguesia.

Capela Curada ou curato
No Brasil, durante o período Colonial até a proclamação da República, o título de Capela Curada era fundamental para que um povoado obtivesse o reconhecimento oficial e com isso pleitear o título de Freguesia junto à Assembléia Provincial. Diferentemente dos governos republicanos, convém lembrar que a administração pública nos idos coloniais não era laica, mas integrada com a Igreja Católica.Capela Curada é aquela que conta com ofícios religiosos exercidos periodicamente por um padre (o cura) e apenas os locais onde as celebrações religiosas ocorriam com regularidade poderiam ser denominados como Capela Curada.

Frequesia
Era atribuído o título de capela curada ao lugar que tivesse determinada importância, sendo que, somente o lugar que fosse capela curada poderiam os habitantes e principalmente políticos reivindicar a elevação para freguesia.        
A menor divisão administrativa existente no antigo Império Português corresponde à Frequesia. O Brasil Colonial possuia uma organização semelhante e durante o Império, a Igreja Católica considerada como religião oficial, era mantida pelo Estado, que tinha o dever de pagar salários para padres e bispos. Deste modo, era adequado que a estrutura administrativa civil não fosse distinta da estrutura eclesiástica. As províncias eram divididas em municípios que por sua vez eram divididos em freguesias. As freguesias correspondiam às paróquias, mas também havia curatos para serviços religiosos em povoações pequenas e sem autonomia política. Por sua vez, o bispos comandavam as dioceses, típica organização administrativa religiosa, que abrangiam geralmente diversos municípios, ou seja, diversas freguesias.
Taiaçupeba ou Santa Cruz do Campo Grande
Somente a Assembleia Legislativa Provincial poderia criar uma Freguesia, em função disto é que temos o pedido dos habitantes da Capela da Santa Cruz do Campo Grande dirigido à Assembleia, intermediado pela Câmara de Mogi e sendo assinado principalmente pelos eleitores do local, pois estes elegiam os deputados da Assembléia Legislativa e assim iniciava-se uma rede de influências políticas em eleições regionais e locais.
Apenas com a proclamação da República, houve uma total separação entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro, de modo que as antigas províncias transformaram-se em estados autônomos divididos em municípios também autônomos que, por sua vez, podem (ou não) ter seu território dividido para fins puramente administrativos. A Igreja Católica passou a manter uma estrutura administrativa distinta.

Fogos/residencia/quarteirão
Fogos eram as casas ou famílias que formavam o quarteirão
Com o Código do Processo Criminal de 1832, o cargo de inspetor de quarteirão foi introduzido no sistema de policiamento brasileiro em freguesias, vilas e cidades. Os inspetores de quarteirão eram selecionados pelos juízes de paz entre a população dos distritos. Recebiam poder (não era raro o abuso de poder) para atuar em seu quarteirão, podendo prender em flagrante, repreender e quando a repreensão não fosse atendida poderia fazer assinar “termo de bem-viver.”

Para saber mais
Arquivo Histórico da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
A “Gazeta de Mogy das Cruzes” dizia em sua edição n°5, de março de 1881, que a linha férrea “Ingleza”, ficava a dois passos dos “Campos do Santo Ângelo.” Disponível em www.dialeticacultural.blogspot.com.br.
E.E. Benedito de Souza Lima. Meu Bairro, Minha História, Meus Valores (org. Dialética Cultural). http://dialeticacultural.net/Meu-Bairro%2C-Minha-Hist%C3%B3ria%2C-Meus-Valores.php
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL.  Lei Saraiva.  Disponível em  http://www.tse.jus.br