sábado, 7 de julho de 2012

Caminhos Antigos VII


Abelhas no Itapety: natureza e cultura
Nos séculos iniciais de colonização, os portugueses, nas entradas para o sertão, aprenderam com os índios a coletar o mel das abelhas nativas de nossas matas.
Nos caminhos da modernidade, hoje encontramos nas prateleiras de hipermercados e supermercados grande oferta de mel e outros produtos originários de diversos apiários que trabalham em escala industrial e todos ou pelo menos a maioria usam as abelhas de origem européia para produzir o mel que chega para o consumo, sendo que as abelhas nativas, apesar do sabor do mel, foram deixadas de lado em vista da baixa produtividade.
Já dizia Aires de Casal, em 1817, sobre as abelhas brasileiras, que existiam diversas espécies, “mas nenhuma delas se pode comparar com a única européia na utilidade de seu produto. A chamada Ururu é a mais numerosa, e de cor parda. A mumbuca é anegrada. A mandassaia negra e curta. Toda as três são do tamanho da européia. A tupim é menor. A teuba é também pequena e amarelada. A cupineira, assim denominada porque ocupa a casa do cupim, faz bom mel. A tataíra e a saranhó. De todas essas espécies só as duas ultimas são perigosas. A getaí é do tamanho de mosquito, e fabrica um mel muito líquido e delicioso. A caruara é pouco maior. A preguiçosa é do tamanho da getaí e fabrica um mel sem gosto. A denominada mosquitinho é muito pequena e mora no chão. Nenhuma destas espécies fabrica favo como os da Europa.”
Conhecido dos antigos moradores da terra, sertanistas e índios, o mel muitas vezes contribuiu para alimentar aqueles que entravam pelo sertão e a existência de mel nas matas, em grande quantidade, serviu também como mantimento daquele morador que se estabelecia pelos caminhos, sendo, segundo Sergio Buarque de Holanda, hábito entre os caboclos de São Paulo trazer de suas entradas na mata, pedaços de tronco contento abelheiras de mandaçai, ou favos capazes de reprodução e o mesmo autor arrematava com a pergunta, “não constituiria herança indígena?”
Apesar deste costume de “criar” as abelhas, o certo é que após os primeiros séculos de colonização, com o avanço do homem, a ocupação e destruição das florestas, principalmente através das queimadas, contribuíram para o desaparecimento das abelhas nativas, como é exemplo a zona cafeeira do Vale do Paraíba e Oeste paulista, onde a derrubada e queima da mata isolava o café de potenciais agentes polinizadores, como as abelhas, o que diminuiu os rendimentos de 10% a 15%, assim, não só a baixa produtividade contribuiu para o desaparecimento das nativas, mas também a destruição de seu ambiente.
Pensarmos em antigos caminhos, natureza e cultura, nos remete à Claude Lévi-Strauss. É novamente o grande antropólogo que nos fornece indícios sobre as dificuldades no convívio com estas pequenas abelhas ou melíponas:
Irapuá ( Trigona sp). Foto:  W.B. Campodônio
[…] o regime alimentar das melíponas é mais variado do que o das abelhas do Velho Mundo e que elas não desdenham as substâncias de origem animal. […] as melíponas se interessam pelas mais diversas matérias, desde o néctar e o pólen até a carniça, a urina e os excrementos. Não é, portanto, de surpreender que seus méis sejam consideravelmente diferentes dos fabricados pela Apis mellifera quanto à cor, consistência, sabor e composição química. Os méis de melíponas são frequentemente muito escuros, sempre fluidos e cristalizam mal, devido a seu elevado teor de água.
Alguns méis com composição alcalina são, aliás, laxantes e perigosos, alguns, até mesmo embriagantes, como o mel da 'feiticeira', abelha   encontrada no Estado de São Paulo.
Apesar de alguns perigos evidentes, o mel selvagem sempre exerceu enorme fascínio sobre a nossa população tradicional. É ainda o antropólogo que nos diz:
Seja como for, o mel selvagem apresenta para os índios um atrativo que não se compara com o de nenhum outro alimento e que, como notou Ihering, assume um caráter verdadeiramente passional: “O índio... (é) fanático pelo mel-de-pau”.

As abelhas da Serra
Os filhos de José Rubens Batista e Antonia Batista, Marcos Rogério Godoy Batista e Rubens Batista, administram uma área de cerca de 71 alqueires em boa parte constituída por mata nativa. Nesta ilha de vegetação, harmoniza-se uma casa de taipa com aproximadamente 130 anos.
Esta harmonia, vem de uma decisão familiar tomada com o falecido pai em 1990: deixar gradualmente a pecuária e investir na apicultura, na comercialização de mel, própolis e geleia real.
Trabalhar com abelhas implica no compromisso de manter e preservar plantas, flores e animais da região e de procurar expandir a atividade para outros moradores: "As abelhas foi a forma encontrada pela gente para não precisar vender nenhum pedaço da nossa da nossa área. O gado estava em baixa, não conseguíamos mais vender tanto leite e queijo e se não tomássemos providência acabaríamos perdendo, como tantos outros, algum espaço" (O Diário, 1993 :18).
Atualmente, o apiário empenha-se na obtenção de méis de abelhas nativas ou indígenas sem ferrão, assim conhecidas por serem dóceis e não possuírem ferrão. Neste sentido, o Brasil é possuidor de ampla biodiversidade incluindo-se abelhas pertencentes ora a espécies solitárias, ora a espécies sociais: são mais de 300 espécies de meliponídeos identificados no mundo e destas, aproximadamente 200 vivem no Brasil, agrupadas em treze famílias ou subfamílias, destacando-se os gêneros Melipona ( Meli = mel + ponos = trabalho ), literalmente as trabalhadoras com mel e Trigona por apresentarem interesse alimentar. Estas abelhas exercem fundamental importância na polinização e preservação de centenas de espécies vegetais em diversos biomas.
Jatai ( Tetragonisca sp). Foto:  Christiano Figueira
As meliponídeas costumam habitar colonias perenes e a maioria faz ninhos em troncos de árvores, algumas em cupinzeiros, no solo e outras ainda constroem ninhos expostos ou em construções humanas. As espécies mais comuns, encontradas na Serra do Itapeti são: Jataí, Mandaçaia, Irapua e Manduri.
Contudo, a transição da pecuária para a apicultura não foi imediata. Foi um longo aprendizado que consumiu mais de vinte anos de preparativos, aplicação e paciência. No início, a opção pela abelha “europa” (Apis mellifera), levou em consideração sua sustentabilidade e rendimento, transformando-se rapidamente na principal atividade do núcleo familiar.
Entre os meses de setembro e outubro de 1994, a Serra do Itapeti foi vitimada pelo que foi talvez, o maior incêndio florestal já registrado na região. O fogo se estendeu por até 4 dias, destruindo todas as condições de biodiversidade favorável às abelhas indígenas, concorrendo para a sua quase total erradicação. Foi nesse período, que Marcos, seu pai José Rubens e demais familiares, procuraram recuperar parte da vegetação destruída com a distribuição de sementes de espécies nativas e a utilização da abelha “europa”, para a polinização e dispersão em massa desta vegetação. Vinte e cinco colmeias foram instaladas próximas das primeiras florações, de forma a promover a multiplicação destas essências.
Mas isto apenas por um período, pois a abelha “europa”, por sua grande capacidade de reprodução, chega a concorrer com as nativas na busca por alimento. Graças a estas medidas, atualmente observa-se um significativo aumento destas abelhas no Itapeti e consequentemente do início da produção melífera. A técnica é minuciosamente descrita por Marcos:
O projeto de recuperação das abelhas nativas relaciona-se, principalmente, na distribuição de ninhos iscas na mata, em substituição aos ocos das árvores destruídas no incêndio de 1994 (seus habitats naturais). Procedeu-se desta forma para evitar o abate de novas árvores pela remoção predatória de méis e enxames por melicultores.
“Fizemos várias “iscas” para a captura dos enxames feitas com “taquara gigante”. Muito embora os técnicos recomendem garrafas PET, achamos agressivas ao ambiente. Os gomos são abertos e vaporizados com uma mistura de própolis e cera de mais de 8 tipos de espécies de abelhas indígenas, deixando-se apenas uma pequena abertura para a entrada do enxame, onde se insere um pequeno cotovelo de PVC, com a extremidade interna voltada para cima, o que fornece ao conjunto, o aspecto de um cachimbo. Isso é feito para evitar a entrada de água e servir simultaneamente de passagem para as abelhas.
Em três anos de atividade, foram distribuídos mais de 100 ninhos iscas em vários pontos da Serra, sendo que apenas 25% nidificaram. O motivo, deve-se provavelmente à falta mundial de mel, fenômeno que vem ocorrendo nestes últimos quatro anos. Das iscas que nidificaram, 10 são da espécie Jatai, 4 de Mandaçaia, 2 Irapuã e 1 de Manduri. O restante foi nidificado por formigas e vespas ou sofreram ataques de outros animais. De acordo com a espécie, fabricamos diversos modelos de colmeias, como a Jatai e Mandassaia. Uma abelha em extinção, que temos encontrado na região do “serramar” é a urupum, muito bonita, com coloração café com leite.”
Pela polinização com esse tipo de abelhas garante-se a qualidade vegetativa dos ecossistemas, em função da melhoria e aumento da quantidade de frutos e sementes, e essa por sua vez, na condição de alimentação farta, abrigo e locais de nidificação de outras espécies de abelhas, mas também animais e aves.
A lida com as abelhas indígenas, significa uma série constante de viagens para a localização de enxames e troca de experiências com outros apicultores. É necessariamente uma atividade colaborativa, autossustentável, não predatória e educativa. Por exemplo, as abelhas do gênero Apis são grandes, não conseguindo polinizar determinados tipos de florações. Já as abelhas indígenas são em geral bem menores e por isso mesmo, capazes de uma faixa muito mais ampla de polinização.
Quero devolver à Serra do Itapeti o que já existia no passado, o que há de mais precioso e importante para o seu ecossistema: as abelhas sem ferrão, concorrendo desta forma a transformar a região em um santuário ecológico e simultaneamente estimular esta atividade para outros melicultores desta e demais regiões.
Duas características recomendam uma visita ao Apiário Cruzeiro do Sul: uma conversa informal com o apicultor, que consiste em uma verdadeira aula sobre a natureza destas pequenas e preciosas abelhas nativas e conhecer o trecho original do antigo Caminho do Lambari, que conduzia tropas de muares e mercadorias de Santa Isabel e Itapeti para a região Central de Mogi das Cruzes. O caminho, na verdade o valão da antiga trilha, permite antever remanescentes vegetais de uma floresta bem conservada e, ao estender-se rumo ao Bairro do Rodeio, verificar os estragos provocados por uma ocupação desenfreada.
Abelhas Indígenas Brasileiras
Nome Popular                           Nome Científico
Abelha do cupim                       Aparatrigona impunctata
Feiticeira                                   Trigona recursa (Holmberg)
Irai                                            Nannotrigona testaceicornis (Lepeletier)
Irapuá                                       Trigona spinipes (Fabricius)
Jandaira                                     Melipona subnitida
Jatai                                          Tetragonisca angustula angustula
Lábios de morena                      Leurotrigona pusila
Mandaçaia                                Melipona quadrifasciata quadrifasciata
Manduri                                    Melipona marginata carioca
Moça branca ou mosquito         Frieseomelita tricocerata
Moça preta                               Frieseomelitta silvestrii (Friese, 1902)
Mombuca carniceira                 Trigona hypogea (Silvestri)
Uruçu amarela preguiçosa         Melipona puncticollis 



FONTES:

TORRES, Marco Aurelio Silveira. Apis Guia. Disponível em  http://www.apisguia.com.br/?pagina=abelha_lsg&id=40.
CAMPODONIO, W.B. Macro - Abelha preta (arapuá). Flickr. Disponível em http://www.flickr.com/photos/wagnerbacciotti/4343201027/. Acesso 07 Maio 2012.

Para saber mais
FIGUEIRA, C. Abelhas do Brasil. Disponível em http://abelhasdobrasil.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html. Acesso 07 Maio 2012.
HOLANDA, S.B. de. Caminhos e Fronteiras. 2. ed. Rio de Janeiro: Liravia José Olympio, 1975.
LÉVI-STRAUSS, C. Do mel às cinzas. Sao Paulo: Cosac e Naify, 2005.
MIRANDA, Adriana. Serra, motivo de orgulho para a cidade. O Diário. Suplemento Especial. Mogi das Cruzes, 01 de Setembro de 1993, pg. 18.
TAUNAY, Visconde de. Céus e Terras do Brasil. 7. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1930.
Podcast: veja em <www.dialeticacultural.net/podcast> a entrevista com Marcos Batista: uma verdadeira aula de apicultura caipira!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Revista Dialética Cultural

Revista Dialética Cultural
Volume 1, Número 2, Junho 2012.

A Revista Dialética Cultural, constitui uma Revista Eletrônica destinada ao fomento de publicações acadêmicas. Produzida por Dialética Cultural, empresa criada por um grupo de professores universitários interessados na divulgação de informações acadêmicas voltadas à área de ensino e pesquisa, com a preocupação maior de apresentar, discutir e estimular a elaboração de pesquisas versando sobre documentação histórica, ensaios, manifestações culturais e porque não, questionamentos e provocações que possam acrescentar conhecimentos àqueles envolvidos nesse ambiente.
Para cumprir com estes objetivos, a Revista optou não apenas por produzir, mas principalmente, por construir socialmente o conhecimento. Para fazer frente a este desafio, a Revista utiliza-se largamente de processos sincrônicos e assíncronos viabilizados pela atual tecnologia comunicativa, centralizados no software desenvolvido pelo Public Knowledge Project (PKP), em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade de British Columbia, Biblioteca da Universidade Simon Fraser, Escola de Educação da Universidade de Stanford e pelo Centro Canadense de Estudos em Publicação da Universidade Simon Fraser. No Brasil, este projeto é representado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).
A Revista apresenta em sua estrutura básica um núcleo de atividades que permite a leitura
on-line e impressa de textos (especificamente formatados para uma impressão correta), com
destaque para a padronização gráfica, postagem de comentários por parte de leitores previamente
cadastrados, índices onomásticos e remissivos, sumário com hipertexto e busca por autores,
assuntos e títulos publicados.
Em seu segundo número, a Revista elenca uma série de três monografias abordando temas como A Salesópolis. A Festa do Divino: das origens aos dias atuais, do pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Robson Belchior de Oliveira Chaves; Chile – 11 de setembro de 1973: História oral de três membros de uma família de imigrantes, de Gisele de Carvalho Silvestre e Cidade dormente: a ferrovia e a formação de cidades-estações no subúrbio leste paulistano (Poá), de Carolina Lanzoni Gomes Fernandes. Três outros artigos complementam a revista: Congada de São Benedito em Mogi das Cruzes, de Alessandra Teixeira; Festa do Divino em Mogi das Cruzes, do pesquisador Robson Belchior Oliveira Chaves e As faces do Budismo em Suzano, da pesquisadora Elizabeth Gonzaga, mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Angelo Eduardo N. Nanni e Antonio Sérgio A. Damy

Editores da Revista Dialética Cultural

sábado, 23 de junho de 2012

Caminhos Antigos VI

Entrada do canal de Bertioga e os prédios da Armação das Baleias.
Caminhos da Bertioga: da lamparina movida a óleo de baleia até a energia elétrica.
Atividade conhecida e praticada em Portugal, por exemplo nos Açores do século XVI, a pesca da baleia encontrou, em parte do litoral do Brasil, um local para a instalação das armações baleeiras, “industria” de pesca, de extração de óleo, utilizados como lubrificante, sabão, cera de velas, óleo para iluminação, sendo utilizado na iluminação pública em oratórios nas esquinas de cidades como o Rio de Janeiro colonial e processamento de muitos outros produtos vindos das baleias. 
 
Ao contrario do que muita gente pensa, a História do Brasil Colonial não se resume só a senhores de engenho e cana-de-açúcar da distante região Nordeste ou o ouro das Minas Gerais, antes, a terra que se oferecia para a exploração era desconhecida e as certezas de um empreendimento que apresentasse lucro para Portugal caminhava ao lado das incertezas e dúvidas de um lugar desconhecido, onde o fantástico fazia parte da explicação do mundo real, como na narração de Frei Vicente do Salvador em 1627 que descrevia o novo mundo : Há muitas mui grandes baleias, que no meio do inverno vem a parir nas baías, e rios fundos desta costa (…) Há também homens marinhos, que já foram vistos sair fora da água após os índios, e nela hão morto alguns, que andavam pescando, mas não lhes comem mais que os olhos e nariz, por onde se conhece, que não foram tubarões, porque também há muitos neste mar, que comem pernas e braços, e toda a carne.”

Ainda é Frei Vicente que traduz a violência da pesca com imagens fortes como “sangue cobre o sol, nuvem vermelha e mar vermelho”, quando conta detalhada descrição da pesca na Bahia, no início dos anos 1600 :“o padre revestido benze as lanchas, e todos os instrumentos, que nesta pescaria servem, e com isto se vão em busca das baleias, e a primeira coisa que fazem é arpoar o filho, a que chamam baleato, o qual anda sempre em cima da água brincando, dando saltos como golfinhos, e assim com facilidade o arpoam com um arpéu de esgalhos posto em uma haste, como de um dardo, e em o ferindo e prendendo com os galhos puxam por ele com a corda do arpéu, e o amarram, e atracam em uma das lanchas, que são três as que andam neste ministério, e logo da outra arpoam a mãe, que não se aparta do filho, e como a baleia não tem ossos mais que no espinhaço, e o arpão é pesado, e despedido de bom braço, entra-lhe até o meio da haste, sentindo-se ela ferida corre, e foge uma légua, às vezes mais, por cima da água, e o arpoador lhe larga a corda, e a vai seguindo até que canse, e cheguem as duas lanchas, que chegadas se tornam todas três a pôr em esquadrão, ficando a que traz o baleato no meio, o qual a mãe sentindo se vem para ele, e neste tempo da outra lancha outro arpoador lhe despede com a mesma força o arpão, e ela dá outra corrida como a primeira, da qual fica já tão cansada, que de todas as três lanchas a lanceiam com lanças de ferros agudos a modo de meias-luas, e a ferem de maneira que dá muitos bramidos com a dor, e quando morre bota pelas ventas tanta quantidade de sangue para o ar, que cobre o sol, e faz uma nuvem vermelha, com que fica o mar vermelho, e este é o sinal que acabou, e morreu, logo com muita presteza se lançam ao mar cinco homens com cordas de linho grossas, e a atracam, e amarram a uma lancha...”
Neste mundo, apesar dos perigos imaginários dos “homens marinhos” e outros mais reais da atividade de colonização, estabeleceu-se neste início de século XVII o monopólio real de pesca da baleia e arrendamento do direito de pesca para particulares sob a forma de contrato e desta maneira parte do litoral brasileiro apresentou a ocupação com a armação de baleias nas capitanias do Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo, nesta ultima na ilha de São Sebastião, Santos e Bertioga.
A armação das baleias de Bertioga foi erguida junto ao Forte São Felipe, na Ilha de Santo Amaro, hoje no território do Guarujá, ficando na trilha que parte da área de desembarque da balsa quando hoje se cruza o canal no sentido Bertioga – Guarujá.
No século XVIII a armação das baleias de Bertioga assim como outras no litoral também serviu para a defesa dos domínios portugueses como podemos ver na instrução militar de 14 de janeiro de 1775, para o Governador da Capitania de São Paulo, onde este deveria informar-se do número e qualidade de embarcações utilizados na pesca pelos contratadores de baleias de Santos, Bertioga e Santa Catarina, devendo aprontar as embarcações assim que fosse requisitado, “não só porque o mesmo contrato é o que tem maior interesse na preservação e defensa dos domínios meridionais do Brasil, porque sem elles não pode a pesca das baleas subsistir de alguma sorte naqueles ferteis e abundantes sítios; mas porque o dito incômodo e prejuizo, sendo de particulares, não devem ser atendidos, quando se trata de causa pública.”
Segundo a historiadora Miryam Ellis o estabelecimento de Bertioga contava em 1789 com uma capela, um sobrado, armazém, casa dos tanques de azeite, o engenho, três casas para amarras e lanchas, casa dos feitores, casa dos baleeiros, trinta senzalas para escravos, fonte de água, cais de pedra, casas dos baleeiros da barra, caldeiras e instrumentos de pescas, ferragens de variado uso, objetos de bronze, ferramentas de carpinteiro, tanoeiro que fabricava barris ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, ferramentas do calafate que era o artesão especializado em vedar ou calafetar as juntas entre as tábuas de que era feita os barcos, três saveiros, quatro lanchas, duas canoas grandes, onze pequenas e sessenta e três escravos.
Pelos itens constantes no inventário de 1789 podemos ter ideia de como era realizado o trabalho na armação, a pesca, extração e produção de óleo e outros produtos.
As embarcações eram guardadas em construções próprias e descendo pelo cais de pedra a pesca era realizada por baleeiros assalariados que incluía um arpoador, remadores, um homem para cuidar do leme e mesmo por pequenos agricultores da região, sendo que as vezes, segundo Miryam Ellis, eram coagidos a força devido o perigo da pesca, pois, não era raro a morte na tripulação do barco que em geral ficava três meses arpoando. Utilizavam os saveiros e lanchas, servindo os barcos menores como apoio ou para arpoar baleias mais perto da costa e dependendo do estado das embarcações entraria os serviços do carpinteiro ou do calafate, responsável pela impermeabilização e calafetação das juntas dos barcos para a perfeita navegação.
Arpoada, a baleia era arrastada até a praia da armação e ali começavam os trabalhos de extração, a gordura retirada e levada ao engenho e derretida em tanques. Os escravos trabalhavam no engenho, nos tanques de azeite, na extração das barbatanas e cerdas. Os serviços do tanoeiro eram utilizados na confecção de pipas para armazenar e transportar o óleo conseguido que girava em torno de 12 a 20 pipas por baleia (se utilizarmos a pipa da região do Douro em Portugal como unidade de medida, temos 1 pipa = 550 litros ).
Morando na armação, responsável pela condução dos trabalhos desde a pesca até o processamento do óleo, ficavam os feitores, que para José Bonifácio de Andrada e Silva eram estúpidos, autoritários, pretensiosos e “inteiramente ignorantes na arte de pescar baleias” por insistirem em arpoar filhotes de baleia, (os baleotes de mama) e as mães. Estes homens conduziam “a perniciosa pratica de matarem os baleotes de mama para assim arpoarem as mães com maior facilidade. Tem estas tanto amor a seus filhinhos, que quase os trazem entre as barbatanas para lhes darem leite e se por ventura lhes matam, não desemparam o lugar, sem deixar igualmente a vida na ponta dos arpões:é seu amor tamanho, que podendo demorar-se no fundo da água por mais de meia hora sem vir respirar acima e escapar assim ao perigo, que as ameaça, folgam antes expor a vida para salvarem a dos filhinhos, que não podem estar sem respirar por tanto tempo. Esta ternura das mães facilita a pesca (…) mas trara a ruína total de tão importante pescaria.”
Além do óleo que abastecia o mercado interno para a iluminação, o azeite e a barba de baleia figuravam na lista de produtos exportados em 1777 e segundo o professor Carlos Cordeiro da Universidade dos Açores (Portugal), especialista em questões comerciais entre Açores e Brasil, estes produtos também lá chegavam e faziam parte do quotidiano açoriano.
Entre 1812 e 1819 os viajantes ingleses John Mawe e Robert Southey passaram por Bertioga observando e relatando o que viam. Southey teceu um breve comentário, restrito a “onde os baleeiros tem um estabelecimento”, porém as descrições de John Mawe são mais apuradas, como as de um viajante-reporter, que nos leva a conhecer o lugar: “...resolvemos não aguardar navio em Santos, mas seguir para o Rio de Janeiro numa canoa, margeando a costa. Alugada uma, embarcamos, depois de remarmos toda a noite, num estreito que separa a Ilha de Santo Amaro, que constitui uma das passagens para Santos, por mar, chegamos, ao nascer do sol, a Bertioga, situada no extremo norte daquela ilha. É pequena a cidade, com algumas construções toleráveis e boas, erguida por conveniência do Capitão-mor e seus ajudantes, que superintendiam um estabelecimento de pesca, similar ao de Santa Catarina, pertencente a mesma companhia, mas muito inferior em tamanho e capacidade. Em ambos, os negros mais hábeis ocupavam-se no preparo de barbatanas de baleia, produto de considerável comércio, …, apanham-se, anualmente, grande número de baleias. Os edifícios para derreter a gordura e armazenar o óleo estão convenientemente instalados.”
Apesar da armação continuar em funcionamento, a verdade é que os contratos haviam sido extintos em 1801 por alvará real e a pesca entrado em decadência. Podemos ler nos relatos de John Mawe que uma mesma companhia atuava tanto em Bertioga como em outros lugares, mas, neste mesmo século XIX a pesca indiscriminada e predatória da baleia levou a decadência das armações, estagnação da vila e um mergulho no isolamento.
A vila de pescadores, no entanto, sobrevivia com a pesca farta de outros tipos de peixe, por exemplo, a tainha, a cultura de frutas, um pequeno comércio se instalara e abastecia o lugar que no início do século XX viu a inauguração em seu território da usina hidroelétrica de Itatinga, em 1910, para gerar energia para o porto de Santos, porém, continuando a vila sem eletricidade, tendo a luz dos pequenos lampiões a querosene por iluminação.
Nos anos 30 a vila é redescoberta e sua importância histórica ressaltada por Mário de Andrade que viajara para justamente conhecer os marcos históricos e dizia:”As duas pensões não tinham mais quartos, com veranistas. Afinal fomos dormir numa casa de taipa dum tabaréu que nem iluminação de vela tinha ...”
A energia elétrica chegou em meados da década de 60 com a expansão dos loteamentos e parcelamento do solo e de lá até hoje muita coisa mudou e a cidade convive com uma ocupação indiscriminada e predatória. Sem uma normatização adequada que regulamente essa ocupação, ação do poder público para conter a especulação e conservar o patrimônio cultural de Bertioga, corre-se o risco de repetir o caso e ocaso da armação das baleias.


Fonte das imagens
Mapa da fortaleza de Bertioga que D Luis mandou fazer 1775    Biblioteca Nacional
Walfang_zwischen_1856_und_1907
Whale Fishing Fac simile of a Woodcut in the Cosmographie Universelle of Thevet in folio Paris 1574
James Cook-whaling

Para saber mais:
Os livros 1 e 2 podem ser encontrados no Arquivo Histórico de Mogi das Cruzes
1) ELLIS, Myriam. Aspectos da pesca da baleia no Brasil colonial II. Revista de História. São Paulo, v. XVI, n.º 33, p 149-175, jan, 1958a.
  1. ELLIS, Myriam. Aspectos da pesca da baleia no Brasil colonial III. Revista de História. São Paulo, v. XVI, n.º 34, p. 379-424 , abril, 1958b.
  2. ELLIS, Myriam. A Baleia no Brasil colonial. São Paulo: Melhoramentos, 1969
  3. MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil. B.H./S.P. Editora Itatiaia/EDUSP, 1978, pag.75

domingo, 10 de junho de 2012

Caminhos Antigos V



Fortaleza de Bertioga e terrapleno feito em 1775
Caminhos da Bertioga: da fortaleza colonial ao turismo atual
Apesar de separadas pela Serra do Mar e cada cidade viver sua própria realidade, Mogi das Cruzes e Bertioga sempre estiveram muito próximas, tanto que no período colonial, por questões de abastecimento, o povo de Mogi descia a serra por caminhos diversos que compreendiam a via que tinha por destino Boracéia e região, ou pelo Campo Grande (atual Taiaçupeba) desembocando próximo do Rio Itapanhaú.
A comunicação de Mogi das Cruzes com o litoral, no início do século XVIII, sofreu as consequências da descoberta de metais preciosos e receios da coroa portuguesa quanto ao livre acesso às minas, assim os três caminhos que de Mogi levavam à Santos foram fechados por ordem real.
Por essa mesma razão a fortaleza da Bertioga passou em 1724 por uma reforma que a dotou de uma construção feita de pedra e argamassa ao invés de somente estacas de madeira, pois se esperava que o porto de Santos tivesse um incremento no comércio e possivelmente fosse alvo de piratas.
Anos depois, em 1775 as reformas na fortaleza da Bertioga, feitas a mando de D. Luis Antônio de Sousa Botelho Mourão, governador da capitania de São Paulo, faziam parte de uma série de medidas que objetivaram defender o território da coroa portuguesa que vivia litígios com o Império espanhol além de continuar a guarnecer a vila de Santos.
Podemos ver na primeira planta a reforma empreendida para reparar os danos causados pela ação do mar no muro lateral da fortaleza e em seguida, na segunda planta que nos mostra a entrada do canal de Bertioga, vemos as novas estacas que circundavam o forte para reforçar a defesa e do outro lado do canal, a “armação das baleias”, onde hoje ainda podemos encontrar alguns vestígios da construção, as estacas e paredes de pedra que compunham o fortim do lado oposto à fortaleza da Bertioga para cruzar tiros com o Forte São João e não permitir a entrada pelo canal para ameaçar e atingir Santos.
 
    Fortaleza da Bertioga que D Luis mandou fazer em 1775
O século XIX assistiu o esquecimento do Forte, o ocaso da armação das baleias e a dura sobrevivência da vila de pescadores e pequenos criadores ou sitiantes, mas no alvorecer do século XX, com a modernidade representada pelo automóvel, as estradas com condições para o transito de veículos passava a ser a pauta de reivindicação das autoridades, sendo realizado em 1917 o I Congresso Paulista de Estradas de Rodagem e em Mogi das Cruzes novamente se pensava na ligação com Bertioga.
Com o início das obras, em 1926, da adutora que iria contribuir para abastecimento de água na cidade de São Paulo São Paulo, os distritos de Biritiba Mirim e Taiaçupeba que ficavam mais próximos do alto da Serra do Mar e outrora tinham passagem para o litoral, passaram a contar com estradas que viabilizaram o transito pesado de caminhões que levavam materiais e operários para as obras. Instalados em Taiaçupeba os operários eram transportados para as obras da adutora na caçamba dos caminhões, sendo que não era raro acidentes como os de 1935, onde um caminhão Sauer despencou num precipício com 22 pessoas, com saldo de 4 mortes e 16 feridos, entre estes alguns em estado grave. Meses mais tarde outra morte era anunciada no transporte de operários que moravam na sede do distrito.
Aos poucos a ligação por estrada de rodagem de Mogi com o alto da Serra do Mar ia sendo efetivada, muitas vezes com estrada aberta, mas caminhos precários, o que era uma constante em relação às estradas como podemos constatar pelos anúncios veiculados em jornal do Ford V8 para o final dos anos 30 que destacava a “Rodagem Especial” que aumentava a altura do carro e garantia “o transito dos mais acidentados caminhos”.
As comunicações por estrada de rodagem avançavam e Santos e Guarujá atraiam turistas principalmente da capital, enquanto Bertioga, no início da década de 40 era vista como um potencial investimento com os primeiros loteamentos urbanísticos abertos pela Cia. Urbanística de Bertioga, tendo a frente José Ermírio de Moraes junto a outros empresários, que também fundam mais tarde a Praias Paulistas S/A e loteiam a região conhecida hoje por Indaiá. É desta época também, especificamente 1948, a Colônia de Férias do SESC.
A corretagem destes e outros loteamentos começavam e logo atingiam a cidade de Mogi das Cruzes em 1957 e inicio dos anos 60 levando muitos mogianos a comprar e construir em Bertioga, na vila Itapanhaú, Indaiá, Balneário Mogiano na Boracéia ou próximo ao SESC, levando a viagem de descanso para o litoral de 3 a 4 horas seguindo pela Via Anchieta-Santos-Guarujá-Bertioga.
Ao mesmo tempo a possibilidade da ligação rodoviária direta Mogi – Bertioga continuava presente para os mogianos com a aprovação pelo Conselho Rodoviário do Estado da construção da rodovia passando por Taiaçupeba, o que faz com que um grupo do distrito, liderados por Milton Rabelo e mais 27 homens desçam a serra do mar, usando trilhas antigas para demonstrar a viabilidade da empreitada passando pelo Sertão dos Freires, de outra feita, realizam a medição do rio Itapanhaú, pernoitando no pé da serra, no dia seguinte sobem as escarpas por trilhas até o ponto de ônibus do Sertão dos Freires.
Há muito a ligação rodoviária se concretizou e consolidou o crescimento da região de Bertioga e com essa ligação direta com o planalto os caminhos continuam a se transformar e novas formas são produzidas, agora com a anunciada duplicação da rodovia Mogi – Bertioga.
Hoje Bertioga não precisa mais da defesa de sua fortaleza contra perigos que venham do mar, no entanto a defesa ainda se faz necessária em relação à conservação de seu patrimônio histórico, materializados em suas construções tombadas, inclusive o Forte São Luiz (23/09/1974) que precisa de urgente intervenção, seu patrimônio cultural que conta com sambaquis, dentre eles um registrado no rio Itapanhaú, a aldeia Guarani no rio Silveira em Boracéia e outros, onde a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo aponta a ausência de pesquisas sistemáticas no campo do patrimônio cultural como um todo ou sumariamente abordada.

Fontes jornail “O Liberal”, 1933, 1938
Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo – tombamento Fortaleza de São Felipe, Livro do Tombo Histórico, inscrição nº87, p.10, 23/09/1974

A fortaleza de São Felipe coberta por vegetação, na ponta da ilha de Santo Amaro, vista de Bertioga

O lado menos visível do canal da Bertioga
Quando, na década de 30, Mário de Andrade concebeu um serviço de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional já havia a preocupação com as construções históricas no litoral, particularmente em Bertioga, que foi visitada por Luis Saia, amigo de Mário, que escreveu “Notas de uma viagem a Bertioga” em 1937, o que levou neste mesmo ano a uma viagem do próprio Mário de Andrade para tomar contato com as construções coloniais e a cultura caiçara. Entre os bens para tombamento inventariados por Mario de Andrade em 1937 se encontrava, além do forte São João, as ruínas do São Felipe ou São Luis. 
De frente para o Forte São João, localizado no lado oposto do canal de Bertioga, no extremo norte da Ilha de Santo Amaro no Guarujá, coberto pela vegetação repousa os vestígios do Forte São Felipe ou São Luiz.

A duplicidade do nome se explica porque em 1904 o escritor Euclides da Cunha se referiu a um dos fortes de Bertioga como São Felipe, no entanto, a construção do século XVI desapareceu e o que hoje vemos é a construção que data provavelmente do final do século XVIII denominada Forte São Luiz (Livro do Tombo Histórico: inscrição nº 87, p. 10, 23/09/1974) e os muros de pedra que ladeiam a costeira do canal e conduzem ao forte, juntamente com as muralhas e piso que resistem ao tempo e ao descaso.
Aqui ressaltamos em detalhe esta construção, apresentado no início da página com o título “Obra da estacada que D. Luis mandou fazer na Bertioga 1775” (acervo Biblioteca Nacional), mostrando que existia no lado oposto ao Forte São João uma “Estacada” ou barreira construída com grandes estacas de madeira para proteção, possivelmente de artilharia e artilheiro, pois a posição favorecia a artilharia de fogo cruzado com o Forte São João, impedindo desta maneira que inimigos entrassem pelo canal da Bertioga, surpreendessem e tivessem acesso à vila de Santos por um local menos guarnecido.
Se hoje cruzarmos de barco o canal no sentido Bertioga – Guarujá, desembarcando e seguindo a trilha à esquerda pela costeira podemos ver o que está representado no desenho do século XVIII, com a Armação das Baleias (restam poucos vestígios), muros de pedra no “caminho da vigia” e “caminho da estacada”.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Pouca pompa e muita fé

Domingo, 3 de Junho de 2012 realizou-se no entorno da Capela de Santo Alberto, no Itapeti, a Festa da Divino Espírito Santo. Festa simples, em ambiente rural, congrega atuais e antigos moradores do Bairro.
Valdinei de Matos Godoy