terça-feira, 4 de setembro de 2012

Caminhos Antigos XIII



A interrupção da ligação de Santos à Mogi para proteger a riqueza das Geraes

Os caminhos do sertão que foram percorridos durante o século XVII, vão ao final deste mesmo século provocar uma grande mudança na vida da colônia.
Por volta de 1694 – 1696, na região que ficará conhecida por Minas Gerais, a descoberta de ouro provocou efeitos que se fizeram sentir na vida da colônia como também fora dela.
A partir da descoberta houve um êxodo populacional de várias regiões da colônia em direção às minas, surgiram mercados de abastecimento que deram um novo sentido à economia colonial, novos caminhos de penetração para o interior foram trilhados, aumento geral nos preços de variada mercadoria nas áreas auríferas, assim como o ouro das minas foi necessário para o desenvolvimento da Revolução Industrial na Inglaterra no século XVIII.
Contava a vila de Mogi exatamente com cem anos quando foi publicado no ano de 1711 em Portugal o livro, Cultura e Opulência do Brasil, composto de seis grandes capítulos que se referiam a: açúcar, minas de ouro, tabaco, gado, e descrevia os dois caminhos de entrada para as Minas Gerais onde se encontravam as minas de ouro. Tão logo publicada, em 1711, todos os volumes impressos de Cultura e Opulência do Brasil foram, por razões de Estado, confiscados e destruídos por ordem do rei de Portugal, D. João V ao Presidente do Conselho Ultramarino, Duque de Cadavel, por ordem de 20.03.1711, pois, principalmente a parte do livro tocante ao caminho para as minas revelava o itinerário a ser seguido, as potencialidades da região de mineração, constituindo-se em verdadeiro guia para empreender viagem para aqueles que iriam tentar a sorte nas minas gerais e não eram poucos.
Desde os anos iniciais da descoberta, a noticia se espalhou como rastilho de pólvora provocando uma “febre do ouro” que levou milhares de pessoas para a região, como descreveu André João Antonil em Cultura e Opulência do Brasil:” A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do número de pessoas que atualmente lá estão... dizem que mais de trinta mil almas se ocupam, umas em catar, outras em mandar catar nos ribeiros de ouro, e outras em negociar. Cada ano, vem nas frotas quantidade de portugueses e de estrangeiros, para passarem as minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos, e pretos, e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas:homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não tem no Brasil convento nem casa.”
Os roteiros para as minas eram variados, um deles partia da Bahia, um “caminho novo” e um “caminho velho” partindo do Rio de Janeiro e um “Roteiro do caminho da vila de São Paulo para as minas gerais e para o rio das Velhas”.Neste ultimo caminho segundo Antonil o tempo gasto desde a vila de São Paulo até a região das minas era de aproximadamente dois meses, “marchando à paulista”
Marchar à paulista significava a maneira como os paulistas desenvolveram suas andanças pelo sertão no século XVII (inclusive habitantes de Mogi das Cruzes) influenciados pela experiência indígena, sendo como os mapas sertanistas mostram, as distancias entre dois pontos marcada pelos dias de viagem e o ritmo da marcha compreendia o horário da madrugada até o meio-dia, no máximo até 13 ou 14 horas para terem tempo de descansar, “de buscar alguma caça ou peixe e mel de pau”, o mel do sertão das abelhas indígenas como a jataí ou outro mantimento qualquer.
Saindo da vila de São Paulo a primeira parada era em Nossa Senhora da Penha a duas léguas (13Km), a próxima parada era a aldeia de Itaquaquecetuba gastando um dia, de Itaquaquecetuba até a vila de Mogi, dois dias; de Mogi vão até as Laranjeiras em mais quatro ou cinco dias; depois até Jacareí mais um dia; de Jacareí até Taubaté dois dias, de Taubaté a Pindamonhangaba um dia e meio; de Pindamonhangaba até Guaratinguetá cinco ou seis dias. De Guaratinguetá caminhavam até o pé da serra quando empreendiam a difícil subida da Serra da Mantiqueira, (onde diziam que todo aquele que passou pela serra, aí deixou dependurada ou sepultada a consciência), para ganhar finalmente o trecho final do caminho na serra de Itatiaia, onde havia duas direções a seguir:uma ia dar nas minas do ribeirão de Nossa Senhora do Carmo e do Ouro Preto em seis dias de marcha e o outro para as minas do rio das Velhas, também em seis dias de viagem.
Na região das minas a carestia era geral e a moeda corrente a oitava de ouro (3,586 gramas) e para o ano de 1703 Antonil apresentava uma lista onde um boi valia oitenta oitavas; sessenta espigas de milho, trinta oitavas; seis bolos de farinha de milho, três oitavas; paio, três oitavas; galinha, três ou quatro oitavas; queijo da terra, três ou quatro oitavas; espingarda, dezesseis oitavas; pistola, dez oitavas; faca seis oitavas; canivete e tesoura, duas oitavas; escravo, trezentas a seiscentas oitavas.
Essa efervescência econômica no início do século dezoito, certamento produzia efeitos em Mogi e região com o possível deslocamento de moradores para a zona aurífera, assim como o contingente nada desprezível de pessoas que por aqui passavam, segundo o roteiro publicado por Antonil.
Outro efeito da descoberta das minas foi de ordem administrativa com a criação em 1709 da capitania de São Paulo e Minas de Ouro e em 1720 da Capitania de Minas Gerais, a elaboração de uma série de leis específicas, uma reordenação jurídica, criação de legislação tributária, defesa e fortificação de vários pontos da colonia para impedir possíveis invasões estrangeiras como era o caso da fortaleza da Bertioga, reformada com pedra e argamassa em 1724 (ver Caminhos Antigos IV) e o fechamento de caminhos do litoral para o planalto como é o caso das rotas de Santos para Mogi em 1722.
A região que hoje conhecemos por Taiaçupeba, outrora Campo Grande, possivelmente era habitada desde a segunda década do século XVIII, tendo atribuição de terras em 1723 “na vila de Santa Anna das Cruzes de Mogy... no caminho que vai da dita vila para a de Santos, na paragem chamada Tijuco Preto.” (Grinberg,1961:32). Este caminho de Mogi a Santos era uma das veredas fechadas por ordem real com o objetivo de evitar invasões estrangeiras.
Estabelecia a “Carta regia sobre a tapagem de caminhos para impedir invasões estrangeiras em S.Paulo e expulsão de estrangeiros e frades” o fechamento de três caminhos da Vila de Mogi para a de Santos (mapa) e consequentemente mandava que os moradores de Mogi usassem para ir a Santos o caminho de São Paulo ou de Taubaté e vilas vizinhas com ligação ao litoral e daí a Santos.
Ao fechar os caminhos de Santos que subiam a Serra do Mar e daí para a vila de Mogi das Cruzes, objetivava-se além de dificultar possíveis invasões de países rivais de Portugal, criar obstáculos para estrangeiros e religiosos, que desembarcando das frotas portuguesas, se dirigiam para as minas como já havia apontado Antonil.

Para saber mais
Carta Régia – Documentos Interessantes para a história e costumes de São Paulo, vol.18, p.51
ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil,S.P. Cia. Editora Nacional, 1966.Introdução A.P.Canabrava
HOLANDA,Sergio Buarque. Caminhos e Fronteiras, R.J.José Olympio, 1975
imagens: Biblioteca Ncional 


Rio das Velhas/mineração
A bacia hidrográfica do Rio das Velhas compreende desde sua nascente no município de Ouro Preto passando por Sabará, Santa Luzia e Belo Horizonte.
A mineração feita nos rios foi predominante, chamada de mineração de aluvião, feita nas areias e cascalhos dos rios, empregava mão de obra escrava

Conversão oitava de ouro/grama
Para efeito de ilustração e sem procurar total exatidão temos que a oitava de ouro é igual a 3,5 gramas e hoje a grama de ouro vale $103 reais.
A lista de produtos comercializados nas minas é extensa e pode ser encontrada na obra completa de Antonil, disponível no site Domínio Público.

O livro de Antonil
Foi publicado no ano de 1711, em Portugal o livro do jesuíta João Antônio Andreoni (Lucca, Toscana, 8 de fevereiro de 1649 - Salvador, 13 março de 1716): Cultura e Opulência do Brasil, sob o pseudônimo de André João Antonil (neste artigo se utiliza Antonil como referência) com a descrição dos dois caminhos de entrada para as Minas Gerais onde se encontravam as minas de ouro.
Antonil foi uma figura ímpar na colônia. Observador atento, escreveu com profundidade e erudição sobre a realidade econômica da Colônia, notadamente a produção de açúcar, de tabaco, sobre a criação de gado e a mineração. Além de apresentar dados sobre a produção, descreveu ainda as técnicas produtivas então utilizadas, comentando as condições de trabalho e condições sociais e políticas vividas pela colônia.
Visando proteger o comércio internacional de Portugal (fumo e açúcar) e também resguardar a colônia contra possíveis invasões inimigas, facilitadas pela exatidão do roteiro fornecido na publicação, o livro teve sua primeira edição destruída em Portugal.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Caminhos Antigos XII




Trilhos urbanos:através dos espaços da cidade



 A cidade é uma experiência visual, como nesta vista aérea de Mogi das Cruzes, do final da década de 1930, que nos dá uma ideia do traçado urbano, seus trilhos que formaram trilhas, que se transformaram em ruas ladeadas por construções , o ir e vir de pessoas, que ocupam as praças, local das igrejas e edifícios públicos, festas, encontros e divertimentos como o circo.
Mario de Andrade já havia se acostumado a reconhecer nos arredores da cidade de São Paulo, que o passado de nossa cultura estava vivo e se manifestava principalmente nas danças e festas caboclas. A pauliceia desvairada havia ficado para trás quando desceu do trem na estação de Mogi das Cruzes no sábado, 30 de maio de 1936, ao meio dia.
A equipe do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo se preparava para filmar os festejos do Divino no Largo Bom Jesus, presentes além de Mario de Andrade, o antropólogo francês Claude Levi-Strauss, que fazia parte da missão francesa que viera fundar a Universidade de São Paulo e sua esposa, Dina Strauss que analisava e via nas danças da festa a formação de companhias de atores, representando cada um determinado papel. E não estava longe da verdade, pois, era exatamente isso que aquelas pessoas faziam na congada, cavalhada ou moçambique, ao viver intensamente a festa.
Ao lado destes personagens transitórios que passavam por Mogi e se encantavam com a festa, outros, da própria cidade tinham seu dia a dia alterado como seu Antenor de Souza Mello que fechava seu armazém na esquina do Largo por conta da cavalhada.
No Largo, os cavaleiros dão início a cavalhada, dividem-se em dois grupos representando mouros e cristãos, entram em disputas, cai um dos cavalos com o cavaleiro. Ele não volta ao torneio: é ajudado por dois homens, um deles com algumas lanças na mão. Continuam os movimentos dos cavaleiros a galope. Um dos cavaleiros dá uma súbita volta com o cavalo, indo parar em cima da multidão. Veste roupa escura e desapeia. À direita, alguns tiros (de festim) são dados por cavaleiros vestidos de branco, junto à assistência. Os cavaleiros, em movimento, batem armas.
Como pano de fundo destas representações festivas, a paisagem de um passado ainda vivo: um casario colonial, mostrando a origem portuguesa desta festa.
Sempre atento, Mário de Andrade não via apenas esses indícios coloniais, mas também o avanço irreversível da modernidade, presente na cidade em transformação.
Processo semelhante ocorre na educação pública, onde a “escola”, que antes funcionava na casa dos professores, agora irá constituir-se no espaço arquitetônico dos grupos escolares, instalados em prédios com uma identidade voltada para a educação, funcionando o novo prédio escolar em 1914 (Coronel Almeida), com uma arquitetura monumental com a intenção de sinalizar e simbolizar as finalidades sociais, morais e cívicas da educação pública, assim como as realizações dos governos republicanos no Estado de São Paulo.


                    desenho de criança do II grupo escolar representando a sala de aula e a cidade em 1937
 
Ato contínuo o segundo grupo escolar funcionou a partir no início dos anos 30 no Largo Bom Jesus e o aluno Nelson de Souza Mello assim o descreve em atividade escolar de 1933: “O prédio escolar – O 2º Grupo Escolar desta cidade está construído dentro de uma área de terreno de forma retangular, no Largo Bom Jesus.Tem a frente, a entrada principal a leste ou nascente, no Largo Bom Jesus e a outra entrada, o portão de recreio, ao norte para a rua Ricardo Vilela. O recreio fica para o lado do poente ou oeste e dá para terrenos particulares.1933”
Fora do perímetro urbano, já na area rural, havia grupo escolar especificamente construído para funcionar como escola no Núcleo Colonial de Sabaúna com funcionamento a partir de 1906 e Cocuera no ano de 1936 em prédio cedido pela Sociedade Japonesa.



 O símbolo moderno representado pelo automóvel e as agencias Ford e Chevrolet instaladas no município, nas novas ruas, largas e apropriadas para o transito de automóveis que chegavam de São Paulo pela Avenida Vol. Fernando Pinheiro Franco, com suas bombas de gasolina e ganhavam a direção do Vale do Paraíba por duas grandes retas ladeando pelo esquerda a linha ferrea e pelo lado direito a estrada tortuosa mais antiga do Rio Acima.
Bairros novos surgiam, desde a segunda década do século XX como atividade imobiliária, a “nova” Avenida levando para a Vila Santista, na rua Santana de vias planejadas com “largura de dezesseis metros tendo...instalações de luz elétrica e telefone”.
Nos jornais eram anunciados novos remédios sintetizados em laboratórios, como a aspirina da Bayer, junto dos tradicionais xaropes de receitas caseiras do século XIX e os espaços da cidade agora contavam com locais onde médicos atendiam em clínicas apropriadas, como o hospital particular do Dr. Deodato no Largo Bom Jesus (no início de 30) e o laboratório de análises clínicas com profissionais especializados vindos da Capital.
A revolução de 1932 que incorporou na política elementos emocionais através de imagens e símbolos deixou como herança os festejos de aniversário da cidade em primeiro de setembro e como um marco físico, o obelisco que remetia a fundação da cidade, fixado na praça central.
É desta cidade de feições coloniais, de mudanças e permanências da primeira metade do século passado, que nos conta Dona Bela Fernandes de Miranda, nascida em 1923, oitenta e nove anos.
Nasceu e morou em frente ao largo Bom Jesus até os sete anos de idade e se lembra da clinica do Dr Deodato e do armazém do seu Antenor, situados no Largo. O antigo armazém, frequentado pelas crianças que procuravam os doces caseiros de abóbora, batata doce e cocada dispostos em prateleiras próprias e os refrescos de groselha e capilé, este último de receita portuguesa, que constava do manual “O Cozinheiro Moderno” de 1780 e bastante popular no Brasil até meados do século XX.
Nos anos 30 Dona Bela se mudou para uma casa ao lado do Largo da Matriz, onde viveu o tempo da revolução de 1932, com os soldados ocupando as dependências do grupo escolar onde estudava. Passada a revolução e o medos de um tempo turbulento e de incertezas para os paulistas, o cotidiano voltava ao normal na cidade com as idas para a escola e na volta, já em casa, retirava os sapatos, artigo raro que não podia estragar.
Depois da escola as brincadeiras de peteca e pular corda aconteciam na praça da Matriz onde em 1935 foi inaugurado o obelisco comemorativo do aniversário da cidade, que aos olhos de uma criança chamava a atenção: “Ninguém podia por a mão no obelisco, parecia um coisa sagrada, uma coisa diferente, havia um respeito ...”
De 1935 em diante o aniversário de Mogi era incorporado aos eventos que aconteciam em praças e largos da cidade sendo os mais comuns pelas festas, a Matriz, o Bom Jesus, Carmo e Nossa Senhora do Socorro, esses os vazios urbanos que recebiam as agitações das atividades concentradas num mesmo espaço como quermesses, danças e o circo, que nas lembranças de Dona Bela o que mais lhe despertava interesse era a presença dos animais.
Das festas, a imagem mais marcante é a do Divino. Festeira quando adulta, não consegue evitar um misto de alegria e saudade ao recordar, da infância e juventude, a imagem das ruas decoradas na Entrada dos Palmitos quando tudo “era palmito de verdade, não era palmeirinha” e do tortinho que não havia na festa e foi receita trazida de Caçapava, num autentico exemplo de trocas culturais.
A partir de 1943, formada professora as aulas passaram a fazer parte de seu dia a dia e os caminhos da cidade a levaram até o distrito de Sabaúna, onde chegava de trem, ministrava as aulas e voltava de ônibus. Caminhos da cidade que também, nos momentos de lazer, levavam às romarias e picnik na gruta Santa Terezinha todo primeiro de Maio ou nos cinemas que eram muitos, espalhados pelas ruas da cidade.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Capela de São Sebastião em Taiaçupeba

Alguns detalhes da Capela de São Sebastião, situada no Bairro homônimo, também conhecido como Debruado, Debroado ou mesmo, no linguajar nativo como Desbroado, distrito de Taiaçupeba, Mogi das Cruzes, SP. Com as obras iniciadas em 1905 e terminada em 1915, esta Igreja, preserva em seu formato original toda a criatividade do pintor José Benedicto da Cruz.


Vista do Forro do Altor Mor























Vista frontal do Altor Mor

















Altor Mor, centro superior esquerdo


Arco divisório entre o Altar Mor e área central da capela

























Veja a documentação iconográfica deste monumento em Capela de São Sebastião.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Caminhos Antigos XI

As cavalhadas a beira da Estrada Imperial, a Santa Cruz e outros patrimônios

A série Caminhos Antigos traz uma entrevista que força-nos a olhar o patrimônio humano, por vezes chamado de patrimônio histórico, arquitetônico ou outro nome e que estamos perdendo.
Ao longo de uma conversa realizada a tarde, Dona Luiza revelou muitas coisas de sua história, mas principalmente lembra do trabalho na terra , da venda dos produtos cultivados, devoções, enterros, brincadeiras, em suma do saber e saber fazer do povo.
É importante lembrar neste momento em que muito se discute o patrimônio histórico na cidade, o primeiro projeto inovador de defesa do patrimônio, elaborado por Mário de Andrade em 1936, o Serviço do Patrimônio Artístico Nacional. Infelizmente este projeto não foi seguido como deveria e somente nos dias hoje, como afirmou a revista Ciência e Cultura (2006) da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, “se vem retomando o projeto original de Mário de Andrade de valorização não só do patrimônio edificado mas também das culturas populares através do chamado patrimônio imaterial”.
O projeto original de Mário de Andrade abrangia um conceito amplo de cultura ao definir “Arte é uma palavra geral, que neste seu sentido geral significa a habilidade com que o engenho humano se utiliza da ciência, das coisas e dos fatos”.Neste sentido Mário pretendia registrar tudo, como por exemplo, as paisagens trabalhadas pelo homem, a arquitetura popular, cruzeiros, capelas e cruzes mortuárias de beira de estrada, música popular, contos, histórias, lendas, superstições, medicina, receitas culinárias, provérbios, danças dramáticas, gravuras, mapas, livros impressos, etc.
Levando em conta esses exemplos acima, podemos pensar em uma História das paisagens, onde a natureza é passível de sofrer modificações pela prolongada atividade humana e produção   de      instrumentos tecnicos que garantem a existência humana, como é o caso do sítio São João, patrimônio que jaz na estrada do Rio Acima e que foi objeto de estudos realizados a pedido da empresa “Norfolk Distribuidora Ltda.”, em 2008, para avaliação de importância cultural.Esquecido desde então, o sítio São João ficava antigamente em área de produção de farinha de milho com monjolos de pé e farinha de mandioca produzida nas “casas de farinha” com moedor, prensa e possuia todo esse aparato técnico de tempos pré industriais, indicativo do saber fazer do povo.
Exposta ao tempo e intempéries, a prensa e o moedor foram resgatados por iniciativa particular em 2011 e assim vamos tocando o nosso patrimônio cultural, com atitudes pontuais e bem intencionadas de particulares, enquanto esperamos a ação oficial cobrada varias vezes pela imprensa e que não se resume em tombamentos temporarios, pois, afinal quase não há o que tombar no sítio São João.

 



















É desta riqueza de paisagens e costumes que nos conta Dona Luiza, nascida em Mogi das Cruzes, Bairro do Itapeti.
Nos seus quase cem anos de vida, noventa e sete para ser exato, Dona Luiza se lembra da construção da estrada Rio – São Paulo, trecho Mogi Guararema em 1927 - 1928 , quando com enxadão os homens tiravam terra e enchiam as carroças tocadas por burro.
Nesta época de infância as brincadeiras no Itapeti eram pegar limão e usar como bola, a peteca de palha de milho, as bonecas de pano feitas para si e depois para os filhos, pois, carrinhos e bonecas não havia e faz uma crítica velada ao consumo quando diz que hoje as crianças “tem brinquedos para jogar fora, mas no tempo que me criei não foi facil”.Com sete anos ficou sem mãe, ressalta e sempre frisa que foi muito feliz, mas sem esquecer a dureza daqueles tempos, pé no chão, vestido de chita. Vida dura, porem tranquila, o que a assusta nos dias de hoje é a insegurança, pois, nem de dia você pode deixar a casa aberta.
Dona Luiza se lembra muito das modas de viola e dos desafios de verso com o acompanhamento de viola, nas festas e nos casamentos e a diversão ficava por conta deste instrumento junto da sanfona.Existiam bons violeiros, entre eles o João Pituba (pituba significa folgazão) que era bom em inventar modas, tocavam também a cana verde.
Região profundamente devota, o que se constata pelo numero de festas e capelas, diz que “toda a vida que eu me conheço por gente tinha” o Divino, com pessoas durante o ano com bandeiras rodando pelas redondezas, pedindo “esmola” para a festa que se realizava na cidade.
No Itapeti as reuniões religiosas eram momentos em que as pessoas podiam se encontrar, pois viviam em um bairro rural com característica de ser disperso com vizinhos distantes, todos muito católicos e em toda encruzilhada tinha um Santa Cruz, havia o terço e ladainha. Na quaresma a Via Crúcis, trajeto seguido por Jesus carregando a cruz, era representado por quatorze estações (etapas) em caminhada passando nas Santas Cruzes espalhadas pela beira de estrada. Alguns padres dizem não saber porque tanta Santa Cruz, mas Dona Luiza explica ser por uma extrema devoção, tinha muitas, hoje só a Cruz do Pito.
As pessoas não vinham para a missa (na cidade) por ser difícil e longa a caminhada, então faziam a reza, o terço, lá no Itapeti, com café com farinha, café na tigela.O rezador era o Belo Sudário, depois Nhô Chico Pinto.
No Natal, momento maior do catolicismo, desciam a serra e vinham para a cidade assistir a missa do galo, rezada a meia noite, na passagem do dia vinte e quatro para vinte e cinco. Nos outros momentos do Natal só a família.
Aqui na cidade na capela da Santa Cruz, no alto da rua Ricardo Vilela, é para onde vinham os corpos trazidos pelos caminhos da serra em padiola ou na rede e ali assentavam porque não prestava descer corpo em qualquer lugar da estrada. Da capela colocavam o corpo em caixão cedido pela prefeitura e era carregado para o cemitério São Salvador em procissão. Você pode ver que aquela rua vai direitinho na porta do cemitério diz Dona Luiza. Sobre este santuário dizia o jornal da cidade,em 1932, que depois de terminada a Semana Santa, eram iniciadas as obras de reconstrução da capela da Santa Cruz, que segundo “O Liberal“ era “...a mais antiga demonstração de fé erigida pela população de Mogy das Cruzes em tempos immemoriais. Depois de alguns anos em ruina, um grupo de pessoas devotas da Santa Cruz e zelosas das tradições históricas desta cidade tomou a peito a reconstrução da legendaria capella...”.Para o andamento das obras se receberia donativos em materiais e realizavam-se quermesses.
Em frente a Santa Cruz havia uma viela onde os cavalos ou tropas ficavam e ali trabalhava um ferrador.
Desciam para a cidade e no Largo Bom Jesus uma das primeiras paradas era no armazém do senhor Antenor de Souza Mello que era “um bom comprador” dos produtos que traziam, cultivados no Itapeti:feijão, alho, milho, batata, prosseguindo a venda em outros estabelecimentos da cidade.
Ainda no Largo Bom Jesus lembra das cavalhadas, repetindo o quanto era bonito e relembra outros lugares onde se davam as cavalhadas como o campo da Iaiá, onde uma arvore muito grande servia para amarrar animais,também no local em que começa a estrada do Beija-flor na altura de César de Souza, do lado da serra e perto da capela de São Jorge havia um campo de grandes dimensões que podia alojar muitos animais para as corridas, ficando este local junto a Estrada Real que chegava em Mogi e que ainda existe exatamente este trecho, saindo da estrada do Beija flor vai dar no fundo da Casa dos Assados no Botujuru.
Havia diferença entre as cavalhadas corridas no Largo Bom Jesus e estas outras em função do espaço de corrida dos animais. Tinha bastante gente na cavalhada, era em reza do ano, mês de maio tinha reza todo sábado em um lugar ou outro e juntava os compadres, as comadres, todos de cavalo. Hoje em dia ninguém conhece cavalhada, diz Dona Luiza.
Além das diferenças de espaço, parece haver diferença de função, pois, na cidade, no Largo Bom Jesus, nas festas de santo é exibição, noticia de jornal, que faz parte da organização a cargo dos festeiros e no campo faz parte de um ritual de divertimento, de integração dos vizinhos, da família, amigos, compadres e comadres.
Quando voltava da cidade, subia a serra com o filho nas costas pela trilha do Rodeio e depois a trilha do Lambari.
Trabalhou com o marido na roça, praticando uma agricultura familiar, criando animais, plantando, ressaltando diversas vezes a dureza da vida, mas em seguida afirmando serem tempos bons. Possuíam algo fundamental: a terra e uma identidade secular com o bairro traduzido nas crenças e folguedos. A serra, o sertão, era o local do trabalho, da moradia, do dia a dia, da diversão e a cidade a realização do trabalho com a venda dos produtos.
Até recentemente a humanidade vivia um ritmo mais lento, hoje, vivemos um mundo da rapidez, onde os valores do mercado vão dominando todas as etapas da vida, do dia a dia e deixam de lado a humanidade social. Chaplin dizia no discurso final de o Grande Ditador em 1940:”Nós desenvolvemos a velocidade mas nos fechamos em nós mesmos. As máquinas que nos trouxeram abundancia nos deixaram desamparados, nossa inteligencia duros e impiedosos. Nós pensamos demais e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas nós precisamos de humanidade”
Lembrando a caminhada com os filhos diz, em tom de censura e graça: agora só de carro tá aqui já tá lá e convida a neta para subir a serra a pé.

As cavalhadas

                               campos onde eram realizadas cavalhadas em Cesar de Souza
 
As cavalhadas foram introduzidas no Brasil pelos portugueses ainda no período colonial e representavam a luta entre mouros e cristãos na península ibérica.
A representação dramática era iniciada com um torneio que reunia uma dezena ou mais de cavaleiros, divididos em dois grupos: cristãos e mouros, representados pelas cores azul e vermelho.
Os grupos faziam evoluções mostrando a destreza em comandar os animais. As cores e aparatos da cavalhada foram confirmadas pelo senhor Luis de Santa Isabel.
Depois destes torneios pode ser seguido o “jogo de argolinhas” onde os cavaleiros mostram habilidades tirando um anel ou argola suspensos por um fio.
O jogo de argolinhas pode ocorrer de maneira independente do torneio entre cristãos e mouros. Dona Luiza confirmou esta ultima modalidade.




                                                                              
Para saber mais
ANDRADE, Mario. Anteprojeto elaborado por Mário de Andrade, a pedido do Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema
Os filmes de Mario de Andrade feitos pelo Departamento de Cultura do Município de Sao Paulo podem ser assistidos no Centro Cultural São Paulo
 CANTARINO, Carolina. Ações oficiais precisam ter continuidade. Cienc. Cult., São Paulo, v. 58, n. 2, June 2006
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A (re)produção do Espaço Urbano.SP:Edusp, 1994

domingo, 29 de julho de 2012

Caminhos Antigos X


Senhor Luis:construtor de viola em Santa Isabel.
A solidão dos caminhos, a viola e Deus
Frequentemente escutamos que a viola de dez cordas é o instrumento próprio para tocar “música de raiz”. Mas o que é essa mal definida “música de raiz”? Talvez possamos dizer que é a música produzida no ambiente rural, nas trilhas e estradas do sertão.
E por que a viola de dez cordas é o instrumento próprio para tocá-la?
Porquê esteve presente no Brasil desde os primeiros séculos de colonização e está presente em praticamente todo o território brasileiro, pois, a viola com dez cordas de aço é conhecida por ser do tipo paulista, ou goiana, ou cuiabana, ou litorânea, ou nordestina.
A viola de dez cordas ou cinco cordas duplas existente no Brasil está diretamente ligada às violas tradicionais portuguesas, como a toeira da região de Beira Litoral, viola com doze cordas “de arame”; a braguesa, da região do Minho, com cinco cordas duplas, a mais importante das violas tradicionais portuguesas, usada em bailes de terreiro, romarias e festas; amarantina, do Douro Litoral, semelhante a braguesa com cinco cordas duplas; a beiroa da Beira Baixa, também com cinco cordas duplas de arame, tem além disso, duas pequenas cordas na parte inferior do braço; a campaniça do Baixo Alentejo, maior que as outras este tipo possui quatro cordas duplas e uma tripla.
Com as navegações e a expansão portuguesa, a viola ganhou os mares, primeiro nos Açores com a viola da terra ou dos Açores, aparentada da viola amarantina e depois o Brasil onde as violas de arame penetraram as regiões nas mais diversas formas de diversão – devoção. Festas de terreiro, cantos de trabalho, culto a São Gonçalo do Amarante, Divino Espírito Santo, Folia de Reis, São Benedito e variadas danças (cururu, catira, cateretê).De fácil transporte, as violas acompanharam os homens entrados pelo sertão e qualquer um com bom ouvido, poderia tocá-la de golpe ou de rasgado, apenas com o ritmo da mão direita.
Dada as características da colonização, as violas irão aportar no litoral e mais tarde entrar para o interior da colonia. Em Salvador, por volta de 1682, o pesquisador José Ramos Tinhorão aponta que o poeta Gregório de Matos, conhecido por Boca do Inferno pelo conteúdo de suas poesias, andava sempre acompanhado de uma viola e suas poesias satíricas de conteúdo do dia a dia foram escritas não para serem lidas, mas cantadas e o próprio poeta diz “eu tanjo rasgado...não por pontos”, o que significa “eu toco rasqueado e não ponteado” que são maneiras de tocar viola, tanto aqui no Brasil como em Portugal.
Fosse em cidades, arraiais, vilas, freguesias ou nas estradas com pouso de tropeiros, a viola esteve presente, como nas tropas que passavam por Mogi das Cruzes no início dos anos 1800 em direção ao Vale do Paraíba - Rio de Janeiro onde um tropeiro cantador de nome Cantante estava na lista de pagamentos do dono da tropa ou no pouso da Escada, onde no início dos anos 1830 um juiz advertia algumas mulheres a não fazerem ajuntamento de pessoas em sua casa, viver honestamente a fim de não perturbarem o sossego público com batuques e viola.
Essas andanças do tropeiro foram confirmadas para o sociólogo e estudioso do folclore, Alceu Maynard de Araújo por seu avô, tropeiro que desde 1870 esteve nas trilhas do Rio Grande do Sul a São Paulo e afirmava que nunca vira seus camaradas viajarem sem a viola, que carregavam dentro de um saco.
Esse instrumento, que acompanhou os homens desde o Brasil Colonia, hoje como afirmação de sua presença, exibe 751.000 resultados em busca na internet para as palavras “viola caipirae 21.000 vídeos no youtube para a mesma expressão. Mostra acima de tudo, o vigor de um instrumento com características humanas, afinal as partes de uma viola são: o braço, boca, cintura, orelha (as cravelhas para afinar), costa, pestana e fica doente, resfriada e rouca. Quais seriam as características desse instrumento que se identifica com o tocador?
Formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, tendo como professor o etnólogo Herbert Baldus, Maynard De Araújo escreveu em 1959 “Viola Cabocla”, um dos primeiros trabalhos dedicados a este instrumento, onde faz um extenso estudo sobre as características e construção da viola, que naquele momento já se tornava “artigo industrial”, produzido em série. Se de um lado mostrava-se como mercadoria com preço mais acessível, por outro ia se fazendo raro encontrar um “fazedor de violas”.
Mesmo com dificuldade de encontrar artesãos dedicados a fabricação da viola, Maynard Araújo conseguiu em vinte e quatro anos de pesquisas encontrar centenas de informantes, dentre eles um fabricante de Santa Isabel.
As violas feitas de pinho, pinho de riga, cedro e jacarandá, comportavam oito tamanhos que se ajustavam ao gosto do tocador, no entanto, o informante de Santa Isabel dizia fazer somente de três tamanhos”, pequeno, médio e grande, sendo o machete ou machetinho pequeno e assemelhado ao cavaquinho, a média, viola mais procurada e comum e a grande com um metro de comprimento e doze cordas.

Semeando sons no Itapeti
Chegados na pequena oficina do senhor Luis em Santa Isabel, interrompemos uma outra atividade sua que, além de construir violas, fazer consertos em peças de madeira e afiar ferramentas de metal, estava a construir um pilão escavado em tronco de madeira tirada da mata.
Na oficina há uma pequena bancada de trabalho com uma morsa, esmeril, ferramentas diversas para trabalhar com madeira, diversas violas prontas e outras semiprontas.
O senhor Luis conta que existiam em Santa Isabel três fazedores de viola, o Lourenço Carneiro, parente de sua esposa, Claudino Chaves e Israel.
Herdeiro de Lourenço Carneiro, que provavelmente é o mesmo artesão citado por Alceu Maynard de Araújo, o gosto pelo instrumento começou cedo: Quando tinha entre 10 e 11 anos, meu pai, tinha uma viola muito boa, que ajudava a dançar São Gonçalo. Quando eu ia mexer na viola, meu pai ralhava: Não mexe na viola, vai estragar... Aí eu pegava e tornava a guardar a viola e saia chorando: ainda vou fazer uma viola.... E meu pai retrucava. Vai fazer uma viola porcaria nenhuma... Lá em Santa Isabel, viola, só mesmo o Lourenço Carneiro faz...
Pois é, o tempo foi passando, cresci, exerci outros ofícios, mas a idéia ficou gravada! Só depois dos sessenta anos e que comecei a fazer violas.
Apŕendi a consertar instrumentos, as medidas e escalas, sempre procurando um jeito de aplicar melhor os ensinamentos que outros me passavam.
A viola, eu comecei a fazer há mais de vinte anos, quando os violeiros (os fabricantes) mais antigos já eram falecidos e a maior parte das violas encontradas, de fabricação industrial.
Ensinei algumas pessoas a fazê viola, mas é um trabalho muito difícil de se fazer, mesmo marceneiro "oficial" tem dificuldade. Eu mesmo, não sou marceneiro, sou um aventureiro. Pego um trabalho e vou executando ali, pego e faço, sem desenho.
A viola começa com a madeira da frente, as laterais e fundo são cozidas e modeladas na forma. Depois faz o braço, que é encaixado e aí amonta ela. Primeiro a frente, depois as costas e depois vai trabalha com o braço.
Nas violas feitas pelo senhor Luis, chama atenção o desenho que circunda a boca da viola e é um trabalho tão bem feito, uma verdadeira “marchetaria cabocla” que chamou a atenção de um norte americano, que chegou a comprar algumas violas para estudar e tentar compreender os delicados traços do marcheado existente nas violas de Seu Luís. A dificuldade foi que o americano tentou reproduzir este marchetado com máquinas e gabaritos industriais, o que impossibilitou a reconstrução dos motivos encontrados nestas violas. Só muito mais tarde, é que se deu conta de que o “segredo” do marchetado encontrava-se num trabalho meramente artesanal e de filigrana. Seu Luis se diverte ao mostrar a ”máquina” que consiste num pequeno pedaço de madeira com vários pregos onde pacientemente corta com canivete, pequenos e sofisticados pedacinhos de madeira preta e outras brancas que irão formar o desenho, que compreendem a “assinatura” do construtor da viola (como uma impressão digital, só existe aquela), atestando a ligação de seu Luis com Lourenço Carneiro já que a assinatura da viola é a mesma.  Quando prontos, estes pedacinhos serão colados de forma a circundar a boca da viola.
Fiel a mesma técnica de Lourenço Carneiro, seu Luís fabrica três tipos básicos de viola, o que novamente coincide com a pesquisa de Maynard que reporta a existência de 3 tipos de violas isabelenses ou paulistas.
Perguntamos se ainda recebe muitos pedidos para fabricar violas para a dança de São Gonçalo. A resposta é dura: "O grande problema hoje é que o povo, o devoto que Dança São Gonçalo, não tem mais dinheiro para comprar uma viola. O caboclo quer pagar dez reais... Sabe o que nós fazemo com dez reais? Eu não compro nem um surtido. Então o que acontece com as viola? Vai prá fora... As violas senhor Luis hoje podem ser encontradas em Minas, Nazaré Paulista, Atibaia, Barretos, Igaratá, e algumas “semeadas” pelo Itapeti.
Eu tenho mais ou menos uma duzentas violas feitas. A maioria tudo prá fora. E é isso aí, a gente aperfeiçou, fazendo as viola comuns e depois fazendo violas maiores.                                                      
Na verdade é um trabalho manual, de madeira, sem nada de compensado. É um serviço simples.


A viola e as lendas
Viola “pega” mau olhado, fica resfriada se guardar com as cordas viradas para a parede.
Madeira para viola deve ser cortada em meses que não tem R e em lua minguante para não dar caruncho. Viola com caruncho é leprosa.
Viola cura reumatismo e varizes.
O violeiro para tocar bem deve pegar uma cascavel com a mão, retirar o guizo da cobra e guardar na viola.
Outra lenda que existe até hoje é a que fala do pacto que o violeiro faz com o demônio para tocar bem e a respeito disto dizia o poeta Gregório de Matos, em 1668 “...a maior parte destas modas lhe ensina o demônio:porque é ele grande poeta, contrapontista, músico e tocador de viola e sabe inventar modas profanas, para as ensinar àqueles que não temem a Deus”.


Para saber mais
ARAÚJO, Alceu Maynard de. Viola Cabocla, http://www.ntelecom.com.br/users/pcastro4/viola.htm
NEPOMUCENO, Rosa. Musica caipira. Da roça ao rodeio,SP:Ed.34,1999
TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular, da modinha a lambada, 6. ed. São Paulo: Art.Editora.1991.
______. História social da música popular brasileira,SP:Ed.34,2002

PODCAST: Entrevista com o senhor Luis www.dialeticacultural.net/podcast